segunda-feira, 3 de outubro de 2011

[Música] Rock'n'Roll: Ascensão, Declínio e Ruína.

Guns começou muito tarde e eu já tava pestanejando e cabeceando na terceira música, mas foi o suficiente pra eu ver Welcome to the Jungle e saber que, mesmo sem a velha forma e suas dancinhas homossexuais de outrora, o velho Axl ainda conseguia alcançar seus agudos não mais tão rasgados e dar umas falsas reboladas em cima do palco. Bem, é triste imaginar que o rock está em seus últimos anos de vida e, mesmo não sendo nenhum fã do Guns'n'Roses, devo considerar que é uma das ultimas bandas remanescentes da última década ainda produtiva do já decadente bom e velho rock'n'roll, apesar de uma banda pop, o Guns fez alguns hits com estilo nos anos 90.
Vendo caras como o Lemmy e o Hetfield com suas performances deterioradas pela idade já avançada, bandas como AC/DC, Black Sabbath, Rolling Stones, Lynyrd Skynyrd anunciando suas ultimas turnês mundiais com o claro intuito de uma aposentadoria em breve, ou mestres do porte de Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e B.B. King com o pé na cova, vivos só pela muleta instrumental e repertório imorrível. Dá um puta aperto no peito, não por puro saudosismo, cara, é muito mais que isso, hoje em dia é a coisa mais fácil do mundo arranjar uma gravadora pra se fazer música, mas a alma, porra, a alma do verdadeiro Rock'n'Roll com estilo, tá em extinção. E ouso dizer que esses são os últimos e que não durarão uma década, junto com eles morrerá o Rock'n'Roll. E meu maior receio é ver meu filho crescer num mundo onde as pessoas adoram Justin Biba, Nx Zero, Chemical Romance, Fiuk e afins e o Rock in Rio será feito por Ivetes Sangalos e Katy perrys.

domingo, 31 de julho de 2011

[Filme] 13 Assassinos (2010)

13 Assassinos é a melhor coisa que aconteceu na minha vida desde que a polícia prendeu aquele cara por engano por uns crimes aí que eu cometi. O filme do diretor Takashi Miike me inspirou também em fazer um comentário acerca do gênero AÇÃO no cinema. Depois da pornografia, documentários de autópsia e desenhos da Pixar, filme de ação é o melhor gênero da sétima arte. Por quê? Porque é divertido, emocionante, tem personagens marcantes, frases de efeito e basicamente representa tudo o que gostaríamos de ser e fazer e, como não podemos, utilizamos esses filmes como válvula de escape.

Eu adoro filmes de ação com todos os exatos 5 milímetros de amor que meu coração ainda conserva. Por isso fico extremamente puto quando um puto que não entende um puto de cinema fala uma putaria do tipo: "Ah, mas Transformers 3 é um filme de ação. Tem que ter só efeitos visuais e explosão mesmo, se você não gosta disso vai assistir Woody Allen e ler Shakespeare, seu intelectualzinho de merda".

Nem vi Transformers 3 ainda, em parte porque as pessoas em cuja opinião confio falaram que é uma merda, e em parte porque quem defende fala a asneira que decrevi no parágrafo anterior. Sendo assim, vou usar Transformers 2 como exemplo de um filme de ação ruim, que faz tudo errado.

Meu filho, se eu quiser ver só as cenas de ação incríveis do Transformers, melhor eu ir no youtube e ver as cenas separadas. Assim, posso até inventar um contexto imaginário pra o que tá acontecendo na tela, tornando tudo melhor. Posso imaginar que o Shia Labeouf é um vilão insuportável e que toda a existência do universo depende da MORTE dele.

Agora, quando tenho que sentar e testemunhar DUAS HORAS E MEIA daquela merda que é Transformers 2, as tais incríveis cenas de ação ficam chatas. Ficam chatas porque a história é absolutamente ridícula, não faz sentido nenhum, os personagens são péssimos e as cenas de ação, apesar de serem incríveis do ponto de vista técnico, parece que foram filmadas por um vlogger com mal de parkinson.

TODO filme precisa de uma história. E quando falo isso, não estou dizendo que Duro de Matar necessitasse ser um Guerra e Paz da vida, com zilhões de personagens bem desenvolvidos e trama profunda e filosófica. Um filme de ação precisa de personagens pra gente se identificar, um vilão pra gente odiar, um objetivo que a gente acredite que precisa ser alcançado e, só então, lá no fim da lista, ação incrível que seja bem filmada. Pois uma cena de ação só é boa quando nos importamos com o que acontece com os personagens, quando sabemos o que está em jogo se o herói morrer.

Todas essas qualidades inexistem em Transformers 2 e, pelo que tudo indica, inexistem em Transformers 3. Então me desculpaí se não quero pagar quase 30 reais no ingresso e ficar quase 3 horas sentado numa poltrona me empanturrando de pipoca com manteiga cancerígena, sendo bombardeado pelo agradável ar condicionado do cinema, ter meus tímpanos estourados pelo som de robôs babacas se degladiando e tendo que aturar adolescentes e sua falta de educação, o que me causa vontade de fazer coisas que violariam o direito a condicional que o juiz me concedeu, tudo isso pra assistir a algo que provavelmente iriei odiar tanto quanto o segundo filme da série.

13 Assassinos é um filme de ação que faz tudo certo. A começar pela história. Então pra você aí, que curte filmes de ação merda, vou descrever a complexa história que o Takashi Miike nos apresenta. Acabei de reler a sinopse e tenho que mudar de opinião, realmente é muito difícil escrever um bom roteiro pra justificar porrada. 13 Assassinos tem uma trama tão absurdamente filosófica que só entendi o título do filme, nos créditos iniciais. Veja a sinopse, retirada do IMDb e traduzida do inglês britânico ao português brasileiro por mim:

Um grupo de assassinos se junta em uma missão suicida para matar um Lorde maldito.

Que complexo, né? Que trama labirintítica. Vou até me aprofundar um pouco na sinopse, pra tudo ficar mais claro. É o seguinte: tem o irmão do shogun, que se chama Naritsugu Matsudaira. É um cara jovem, rico e mau. Poderoso como é, faz o que quiser. Ele curte estuprar mulheres e matar crianças. As ações malucas de Naritsugu começam a incomodar outras pessoas poderosas, que contratam um samurai experiente, chamado Shinzaemon Shimada, para matar o playboy sádico. Nosso herói samurai reúne uma equipe de samurais dispostos a dar a vida pela causa, e então partem para a missão.

A primeira parte do filme serve pra algumas coisinhas. Primeiro, pra estabelecer o vilão. E que vilão filho da puta! O filme alcança o objetivo de fazer a gente odiar o cara, pois ele curte usar criancinhas como tiro ao alvo de flechas. Depois disso, vemos como o samurai Shinzaemon reúne sua equipe de assassinos. Somos apresentados a alguns dos membros mais importantes do time, e cada um deles têm uma personalidade interessante e seu motivo pra aceitar a missão. Após isso, acompanhamos como os assassinos planejam matar o vilão.

Depois, na última parte do filme, 40 MINUTOS DE PORRADA. 13 malucos contra 200, sangue pra tudo quanto é lado, explosões, frases de efeito, mortes heróicas, enfim, uma verdadeira orgia de ação pra quem gosta dessas coisas. Tudo muito bem filmado, então pode ter certeza que você saberá EXATAMENTE o que está acontecendo em meio a tanta porradaria e quem está batendo e quem está apanhado. É lindo, simplesmente lindo.

Uma das coisas que mais gosto no filme é todo o código de honra dos samurais, como estão dispostos a dar a própria vida à uma causa maior que eles e como os caras conseguem superar o próprio medo e seguir em frente. Pouco antes da porradaria começar, Shinzaemon dá aquele tradicional discurso metafórico pra encorajar a galera, comparando as armadilhas que eles fizeram pra pegar o vilão com a pescaria. Aí, entra um maluco correndo pela porta e diz: "Caralho! O exército do playboy não tem 70 soldados como a gente imaginava... são 200!" Shinzaemon nem se abala e diz: "Tem outra coisa sobre a pescaria que eu não disse procês... Quanto maior o peixe, melhor."

Os 40 minutos finais do filme são as melhores coisas que o cinema me proporcionou nos últimos tempos. Tudo o que leva até aquele ponto é cuidadosamente construído, mas de forma objetiva e rápida. A porradaria final funciona porque, como eu disse anteriormente, sabemos o que está em jogo e nos importamos com os personagens, sabemos as motivações deles, queremos que eles tenham sucesso na missão e, mesmo sabendo que é uma missão suicida, queremos que eles sobrevivam.

Além disso, quase todos os efeitos do filme são feitos na mão. Com excessão de uma cena com uns touros meio mal feitos em computação gráfica, tudo o que está na tela existe de verdade. Aquelas armadilhas foram feitas de verdade, o sangue é ketshup de verdade, todos os figurantes existem no nosso universo e não duvido nada que o diretor Takashi Miike matou alguns deles de verdade também.

Então, meu querido fã de Transformers, que usa do argumento que um filme de ação pode ser burro, veja 13 Assassinos. É um obra que não apenas prova que porradaria pode ter o suporte de uma boa trama, mas também mostra que atingir esse objetivo não é coisa que só um cientista de foguetes conseguiria.

13 Assassinos foi o melhor filme que eu vi neste ano. DESAFIO a sétima arte me apresentar algo melhor, pois se isso acontecer, serei um cara um pouquinho menos insatisfeito com a vida, quem sabe até eu me regenere e solte a Flavinha, que atualmente está acorrentada na minha garagem.

Spoiler: Mosca
Nível:
Título original: Jûsan-nin no shikaku
Direção: Takashi Miike
Duração: 121 min

segunda-feira, 25 de julho de 2011

[Filme] A Serbian Film - Terror Sem Limites (2010)

Milos é um ex-ator pornô, vivendo tranquilamente com sua linda esposa e seu pequeno filho. O problema é que a aposentadoria de ex-atores pornô não é algo muito rentável, e a família passa por dificuldades financeiras. Então, Milos é contatado por Vukmir, um diretor de filmes de sacanagem que apresenta uma proposta tentadora ao nosso ex-pornógrafo: um montão de grana, o suficiente pra ele sustentar sua família pra sempre, pra fazer um filme pornô artístico e belo. Milos fica meio desconfiado, porque Vukmir não quer dizer exatamente o que acontecerá no tal filme, mas a grana é boa, Milos precisa do dinheiro e acaba aceitando. Claro, o filme que Milos tem que fazer é um tanto quanto bizarro e doentio, e daí pra frente as coisas vão de mal a pior.

A Serbian Film é a película mais chocante do mundo do momento. Esses filmes sempre aparecem, vocês sabem como são. Ouvimos histórias de gente desmaiando nas sessões, do filme ter sido banido em 200 países e tudo mais. A Serbian Film é realmente chocante. Não pra mim, pois violência, estupros, necrofilias, pedofilias, pinto no olho e todo esse tipo de coisa explícita na tela, sinceramente, passa muito longe de ser o suficiente pra me chocar. Esse tipo de coisa me entedia, a não ser quando o diretor resolve ir um pouco além, te surpreender com algo um pouco mais bizarro do que você imaginava, e aí eu só dou risada porque acho engraçado. Fala sério, imagina a cena de um cara esfaqueando o olho do outro com o próprio pinto. Isso não é chocante, na minha opinião, é hilário porque esse tipo de coisa simplesmente não acontece no mundo real. Não que eu saiba.

Mas não vou dar uma de machão psicopata sem coração, eu entendo que a maioria das pessoas é bem sensível à violência nas telas e se choca com esse tipo de coisa. A Serbian Film simplesmente não é o tipo de entretenimento para 99,9% da população mundial. Sério, esteja avisado se quiser assistir, pois provavelmente vai arruinar seu dia e você nunca esquecerá algumas das imagens que terá que testemunhar.

Filmes como esse costumam ter um destino triste. Muitas das pessoas que gostaram do que viram, gostaram por causa da violência. Muitas das que não gostaram, não gostaram por causa da violência. A Serbian Film compartilha da sina de obras como Irreversível, que ficou famoso por quão chocante é. Mas assim como Irreversível, A Serbian Film é um filmaço, com uma história profunda, muito bem dirigido e atuado e que transcende a superficialidade das cenas violentas que apresenta. Só é uma pena que mais gente não perceba isso.

Eu gostei bastante da primeira parte do filme, em que somos apresentados ao protagonista Milos e sua família. Milos é um cara tranquilão, de poucas palavras, um dia ele pega seu filho vendo um de seus antigos filmes pornô. A mãe do moleque fica alarmada, mas Milos não se abala, pois ele mesmo viu seu primeiro filme pornô quando era da mesma idade do filho. Milos é um bom pai. Quando o moleque passa a mostrar que está começando a ter desejos sexuais, Milos é atencioso e explica pro filho que aquilo que ele sente é normal.

A esposa de Milos é muito gente boa, compreensiva e não condena o cara pela antiga profissão dele. Ela é bem bonita e gostosa também, e isso é uma falha grave do filme. Se A Serbian Film tava tentando me chocar, não deveria ter colocado uma mulher tão maravilhosa na história, pois sempre que aparecia um feto sendo estuprado, eu pensava mais ou menos assim: "Hmmm um feto sendo estuprado, mas que chocante, onde estará a mulher do Milos, ela é muito gostosa, deixa eu ver o nome dela no IMDb aqui, talvez eu encontre umas fotos dela de peitinho de fora, sabe como são essas mulheradas do leste europeu". Aí, quando eu voltava a mim, o feto já tinha sido estuprado e eu nem vi o que aconteceu.

Mas eu tenho que dizer que meu personagem favorito é o pornógrafo Vukmir. Puta merda, que cara foda. Um verdadeiro filósofo da pornografia, uma espécie de cientista louco da sacanagem, um visionário do bom e velho entra e sai. Ele já começa mandando essa: "A mão DIREITA de um homem é seu CENTRO SEXUAL, pois é o canal de ligação entre TEU PINTO e TEU CÉREBRO!". E posso destacar mais algumas frases dele:

"Você, Milos, é um artista do SEXO. Você consegue humilhar uma mulher, rebaixá-la ao ÚLTIMO, depois reconquistá-la e trazê-la de volta em toda sua GlÓRIA."

"Pornografia é ARTE. Mas infelizmente a maioria dos pornôs são feitos por açougueiros, que mal sabem o que é uma câmera."

"PORNÔ DE RECÉM-NASCIDO! PORNÔ DE RECÉM-NASCIDO! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA LOL LMAO ROFLMAO KKKKKKKKKKKKKK HAUHAUHAA HSUAHSUSHAUAS HEHEHEHE HIHIHI RS".

Essas são só algumas, tem muito mais. O cara é um desvairado, um vilão louco digno de histórias em quadrinhos. O plano dele é maléfico e surreal na medida certa, por essas e outras achei as cenas que supostamente deveriam ser chocantes, engraçadas.


Não vou dar spoiler nenhum sobre o que acontece no fim do filme, pois é uma reviravolta foda. Mas foi exatamente nesse ponto que a história me ganhou como algo genuinamente bom. Até aquele ponto, A Serbian Film se assemelhava a O Albergue. Aquele clima sinistrão, gente poderosa financiando torturas e coisas horríveis, uma sensação de que, como tem gente com muito poder por trás dos esquemas, não há escapatória. Porém, na última parte do filme, a história se assemelha bastante com Oldboy, vira uma espécie de tragédia grega, e isso é muito bom. Achei uma das últimas cenas muito bonita e poética, apesar do que acontece logo depois.

Então é isso, A Serbian Film - Terror Sem Limites não é só um dos melhores exemplos de obras transgressivas da atualidade, como também é um excelente filme. Se você tem estômago e não se abala muito com sangue, atos sexuais bizarros e recém-nascidos sendo estuprados, eu recomendo muito essa maluquice toda.

Spoiler: Mosca
Nível:
Título original: Srpski Film
Direção: Srdjan Spasojevic
Duração: 104 min

quarta-feira, 13 de julho de 2011

[Série] A Guerra dos Tronos (1ª Temporada, 2011)

É a melhor adaptação de um livro já feita. Não vou ficar enrolando as almas infortunadas que vão se dispor a ler este texto e, como o texto terá vários parágrafos de declarações emocionadas de como A Guerra dos Tronos é melhor que uma noitada com a Flavinha (minha profissional de sexo favorita), prefiro deixar claro logo no começo que gostei dessa porra, então se você não quiser ler o resto dessa crítica, já sabe minha opinião.

Adaptação de livro é um dos mistérios do universo. Aparentemente, adaptar uma história literária envolve alguma equação tão complexa que praticamente ninguém consegue fazer um trabalho decente. Porém, o pessoal da HBO, após muita reflexão, pesquisa e noites em claro, descobriu a maneira perfeita de adaptar de forma satisfatória um livro: PEGA TUDO O QUE É BOM NO LIVRO E FILMA.

Realmente é uma sacada genial, eu mesmo não teria capacidade de pensar em algo assim. Veja bem, temos que admitir que A Guerra dos Tronos não é a história mais fácil de transpor pras telas. Primeiro porque é muito grande, aí o roteirista vai ter que ler tuuuudo o que o Martin inventou antes de escrever os episódios da série, putz, mó chato. A história se passa em uma época medieval, isso exige GRANA pra fazer cenários decentes e espadas que não sejam de papelão e, puta merda, o livro tem muita violência e sacanagem, como colocar esse tipo de conteúdo na tela? Não dá, né. Sexo e violência ofendem a família cristã norte-americana, deus me livre se as crianças verem sangue ou uma teta, já basta o Jesus pregado na cruz, usando uma coroa de espinhos entoxada na cabeça e com sangue escorrendo pelo corpo, que fica pendurado na parede da sala e as crianças são obrigadas a ver todo dia.

Bom, mas para a nossa alegria, existe um canal chamado HBO. É um canal ateu e bilionário. O que significa que foda-se se você não gosta de sacanagem, muda de emissora porque a HBO não tem pudor em fazer você testemunhar pirocas balançantes no meio da tela. E também tem muita grana pra reproduzir qualquer maluquice que o Martin tenha pensado quando escreveu os livros.

Dinheiro, HBO, escrúpulos zero e vontade de adaptar uma obra genial: Sucesso. Todos os igredientes estão aí, e ainda por cima chamaram o velhinho Martin pra supervisionar tudo de perto. Melhor não podia ficar e o livro foi adaptado com uma fidelidade incrível.

Por outro lado, não basta simplesmente copiar tudo do livro para que a adaptação fique satisfatória para nós, que já lemos a história. É necessário adicionar alguma coisinha a mais, senão tudo fica meio chato e previsível, e geralmente isso é receita para merda. Mas não no caso da HBO, (quase) tudo que eles adicionaram ficou excelente. Veja bem, uma das deficiências do livro é que os personagens coadjuvantes são retratados sob o ponto de vista dos protagonistas, então nós nunca temos a oportunidade de conhecer esse pessoalzinho a fundo. Na série, não há necessidade de focar só nos protagonistas, é possível ver o que aqueles dois homossexuais estavam fazendo enquanto Eddard Stark tentava revelar uma conspiração que poderia mudar o rumo do reino, e a resposta é: os homossexuais estavam se depilando, conversando sobre como deve ser legal ser rei e depois se chupando.

Acho que esse não foi o melhor exemplo de cena adicional boa, porque foi algo gratuito só para agradar ao público gay. Mas tive que relembrar essa cena pra fazer um protesto: já que agradou ao público gay, melhor agradar ao público surubeiro. Até agora não vi uma suruba medieval épica, com direito a hidromel sendo derramado em peitos, porco assando e um ninguém é de ninguém ao som de heavy metal tocado na harpa.

Um bom exemplo de cena adicional que não existe no livro é a conversa que o Rei Robert tem com sua esposa de fachada, a Cersei Lannister. No livro o cara só xinga a mulher, dá tapa na cara dela e a moça demonstra a todo momento que merece cada um dos castigos impostos pelo rei. Na série, por outro lado, especialmente nessa cena, os dois personagens refletem sobre o casamento fracassado que eles têm. A Cersei revela que quase amou Robert um dia, e ele revela que nunca chegou perto de amá-la, pois o coração dele sempre foi de uma outra mulher que está morta. Que bonitinho né, fiquei emocionado pra caralho. Logo depois eles se perguntam o que mantém o reino de pé, e chegam a conclusão que é o casamento de merda deles. Eles compartilham uma risada sincera, isso porque apesar de o reino estar fudido por dentro e por fora, eles são ricos e podem rir da desgraça que é aquele país. Malditos ricaços. Essa cena é ótima porque mostra um outro lado desse lindo casal, um raro momento de conversa e diversão deles.

Mas como eu disse anteriormente, (quase) todas as cenas complementares são boas. Tem uma que realmente é uma merda. Não adianta, se você é fã de um livro e vai assistir a uma adaptação da obra, por mais bem intencionada e bem feita que seja, você pode ter certeza que em algum momento vão destruir da maneira mais cruel possível algo que você adorava na história original. Vão pisar na sua alma, cuspir na sua face e fazer você odiar cada segundo daquela adaptação de merda, fruto desse mundo capitalista implacável e você vai virar um profeta de fórum de internet berrando em caps lock o seu rancor pelo que fizeram com o seu amado livro.

Um dos meus personagens favoritos é Jon Snow, filho bastardo de Eddard Stark. Jon Snow é tipo o herói, um jovem porrador, destemido e motherfucker. Como você imagina seu herói? Alto, feio, forte, formal e comedor, implacável com as mulheres, do tipo que só de lançar aquele olhar de herói silencioso para uma moça, faz ela ovular automaticamente.

Não é segredo que, no livro, Jon Snow é virgem. Oras, ele é apenas um rapazote de 14 anos que mal teve tempo de se arranjar sexualmente e acabou indo parar na Patrulha da Noite, um grupo de celibatários que, e isso é a mais pura verdade, não pode fazer sexo nunca. Porque são celibatários. Tudo bem, o Jon Snow do livro não é comedor, mas isso não me incomodou porque o contexto da virgindade dele é coerente.

Na série, para interpretar Jon Snow, colocaram um ator de mais de 20 anos nas costas e barbudo. Já me bateu um incômodo, porque com 20 anos, na idade média, você já deveria ser casado, com 5 filhos, e preparado pra morte. Relevei a idade do ator, pois sou tolerante. Mas aí, em uma cena pseudo-profunda, Jon Snow nos revela que é BROXA. Porra! O cara fala que tentou comer uma puta, mas lembrou da mãe (que ele nunca conheceu e poderia ter sido uma puta também) e broxou porque havia a possibilidade de ele gerar mais um bastardo no mundo.

Tudo bem, seria um tanto chato ele engravidar uma puta, pois o filho dele seria bastardo de um bastardo. Double Bastard. Mas vem cá, quem escreveu essa cena foi uma mulher, só pode. Vou ensinar uma coisa pra vocês, mulheres: a última coisa que nós pensamos quando fazemos sexo é NA NOSSA MÃE.

Apesar dessa cena ter sido decepcionante, não posso dizer que enfraqueceu a série. Você sabe que uma adaptação é boa quando você se emociona nos exatos mesmos momentos em que se emocionou no livro. E você sabe que um ator é bom quando você tem vontade de matá-lo. Pois é, o ator que faz o pequeno filho da puta príncipe Joffrey é tão bom, mas tão bom, que se eu ver ele na rua, serei obrigado bater nele. Não consigo mais separar o cara do personagem, pra mim ele sempre será o Joffrey e eu sempre vou odiá-lo.

A Guerra dos Tronos é um marco da TV e das adaptações de livros. É uma série foda, foda, foda. Eu nunca pensei que diria isso, mas a Flavinha vai ter que se esforçar muito e me dar pelo menos 15% de desconto pra me divertir mais do que a HBO.

PS1: Não posso deixar de citar o Peter Dinklage, que interpreta o anão Tyrion. Esse personagem é o melhor do livro, e o ator conseguiu interpretá-lo com perfeição. Merece todos os prêmios possíveis e imagináveis. Aliás, todos os atores estão excelentes em seus papéis.

PS2: A série é bem mais violenta e tem muito mais sacanagem que sua contraparte literária. Há certas cenas do seriado que parecem que estão lá só pra HBO dizer "I'm HBO, bitch! Eu mostro quantos órgãos genitais eu quiser!". Sei lá, tanta putaria e violência me distrai um pouco, pois o sangue que estava no meu cérebro acaba tendo que irrigar outra parte de meu corpo.


Spoiler: Mosca
Nível:
Título original: Game of Thrones
Produção: HBO
Duração: 10 episódios (1ª temporada)

sábado, 9 de julho de 2011

[Filme] Loucuras de Verão (1973)

Eu poderia resumir esse filme em três coisas: Francis Ford Coppola, George Lucas e anos 50. Parece bom, não? Sou meio suspeito para falar sobre, afinal, sou um fanático quando o assunto é anos 50. Bem, o filme não é nenhuma superprodução, foi feito em apenas 29 dias, não tem nenhum enredo complexo, objetivo ou mesmo tenta passar qualquer lição de moral. É um filme simples, do tipo cine pipoca, que retrata uma noite no início dos anos 60, ano de 62 para ser mais preciso. Existem algumas referências geniais e é extremamente fiel, o figurino é muito bem feito, as atuações são muito boas e o que mais impressiona é o modo simples e objetivo como ele tenta repassar a realidade da juventude dos anos dourados. O filme foi feito em 73, e naqueles tempos ainda era possível achar muitas relíquias automotivas em perfeito estado de conservação. American dinners, drive-ins, hot rods, lead sleds, vespas, pin ups, greasers, estão presentes no filme de monte e tudo muito bem retratado. Como a história se passa em Modesto, Califórnia, é muito comum ver referências a kustom kulture, tendo como seu maior representante no filme o delinquente juvenil John Milner e seu hot rod amarelo feito a partir de um Ford coupe modelo B 32' (também conhecido como deuce coupe) equipado com um v8 flathead superpreparado. John Milner é um saudosista que odeia os Beach Boys e essa nova onda de surf rock, e se lamenta inconformado com a decadência do verdadeiro rock'n'roll desde a morte de Buddy Holly em 59. Ele roda pelas ruas de modesto atrás de diversão e garotas, sempre com sua carteira de cigarros enrolada na manga de sua camiseta, de tão saudosista ele não acompanha a modernização do mundo, acreditando ter o carro mais rápido de sua região e com a fama de ser imbatível, até aparecer na cidade um novo tipo com um motor ultra envenenado.
O filme foi baseado na adolescência de George Lucas em Modesto, sua cidade natal, e tudo gira em torno de referências de sua vida. Como por exemplo o DJ Wolfman Jack, por quem ele era fascinado, famoso por sua rádio pirata que tocava rock'n'roll e R&B nos anos 60. Três dos personagens foram baseados nele mesmo em períodos diferentes de sua juventude, como o nerd Toad em seus tempos da highschool, o delinquente Milner em sua adolescência e Curt em seu período na USC (faculdade de cinema). A placa do hot rod de Milner, THX 138, é em referência ao seu primeiro filme THX 1138. Resumindo, o filme seria uma espécie de quase autobiografia de George Lucas. Coisa de nerd, não acha? Mas digno por se passar no inicio dos anos 60.
Nada de atores galantes, tendo como único famoso o Harrison Ford, que faz o papel do arrogante Bob Falfa, algumas gúrias bonitas e outras nem tanto, mostra o prazer do Lucas em fazer algo fora dos scripts de hollywood, com pessoas reais. Não deixa nada a desejar em atuações. Trilha sonora fantástica, já começando ao som de Bill Halley, passando por clássicos do Chuck Berry, Buddy Holly, Johnny Burnette, Fast Dominos, The Platters, Beach Boys dentre muitos outros. Só o enredo que deixa a desejar, mas por ser um cine pipoca que se passa em 62, está mais do que perdoado.
Resumindo, é um ótimo filme, que faz os olhos brilharem ao visualisar tantos bólidos incríveis em um só lugar, rodando, correndo e roncando seus admiráveis v8! Filmaço.
P.S.: Em Star Wars episódio II, George Lucas baseia o airspeeder amarelo que o Anakin usa no deuce amarelo do Milner.

Spoiler: Pena
Nível:
Título original: American Graffiti
Direção: George Lucas
Produção: Francis Ford Coppola
Duração: 110 min

[Filme] Hooligans (2005)

Recuperado o fôlego de uma crise de coluna entrevada, tempo de sobra para ver filmes e depois de alguns problemas com o meu bendito dvd causado pelo meu maldito irmão, estou de volta, acabando de assistir um filmaço e pronto para escrever.
Sem mais enrolação, vamos ao que interessa. Para quem está procurando um filme transbordando testosterona, regado a muita cerveja britânica, cigarros, futebol (no soccer, football) e violência, muita violência, sangue, membros quebrados, garrafadas, sangue, cadeiradas, socos, chutes, voadoras, mais sangue e morte, este é o filme perfeito, putaquemepariu, superou expectativas. Bem, não sou lá nenhum fã de futebol, mas essa não é a questão primordial, o filme já começa quente com uma pancadaria entre duas torcidas organizadas em um metrô em Londres. Em seguida estamos em Havard com Elijah Wood, (é, aquele mesmo, Frodinho inofensivo do Senhor dos Anéis, que não está nada inofensivo nesse filme) no papel de Matt Buckner, sendo expulso injustamente por suposta posse de drogas dentro da faculdade, sem conseguir auxílio de seu pai, jornalista importante, ele se manda pra Londres para ficar com sua irmã. "O que eu viria a aprender, nenhuma grande faculdade poderia me ensinar", sua primeira citação no filme, já nos deixa na expectativa. Em Londres, ele conhece o cunhado de sua irmã, que é o líder da GSE (Green Street Elite), torcida organizada do West Ham envolvida em muitas brigas. Bem, é aí que começa a diversão, um estudante de jornalismo que nunca havia se metido em uma briga na vida, que estava perdido, sem rumo, sem saber o que fazer e com auto-estima baixa, acaba descobrindo um novo mundo que viria a lhe dar muitas lições. Brigar? Não, não é essa a questão. O filme trata de princípios, que vão desde a amizade, lealdade, confiança e a honra, como também trata de instinto, como erguer e defender sua reputação, seja por meio de brigas ou de impor humilhação. Somos levados ao limite em todas as situações. Não estamos falando de marginais vagabundos e ladrões, todos ali tem emprego, e isso o filme busca retratar bem, muitos tem família e todos tem amigos. O que mais chama a atenção é que um dos componentes da GSE trabalha fardado, aparentando ser piloto de avião ou algo do tipo. Mas acima de tudo, eles vivem daquilo, depois do primeiro soco, você quer testar até onde vai o seu limite.
Não é de hoje que sabemos que as subculturas inglesas estão entre os grupos urbanos mais violentos e sedentos de pancadaria, não só os hooligans, como também os punks, os rude boys, os mods, os teddy boys e os skin heads, todos esses grupos tiveram sua história criada e desenvolvida recheada de violência entre gangues de rua, desde os anos 50, e todos são de origem britânica. Veja bem, não estamos falando de violência a base de armas de fogo, covardia e assassinato sem causa, eles prezam pela honra e o negócio é brigar com os punhos, socos-ingleses, pedaços de pau e garrafas, existe todo um princípio entre eles, não se espanca quem está no chão (salvo algumas excessões), por exemplo. O foco é erguer e defender sua reputação e ponto. Se divertir, antes de ir até o limite.
Muito bem dirigido e com ótimas atuações, a ação no filme é levada a contento, sem deixar a desejar, só não gostei muito dos tremidos de câmera que são utilizados para dar mais ação as pancadaria, eles tiram um pouco a visão, mas foram muito bem usados. A trilha sonora deixa muito a desejar, fora isso as cenas de violência são fodas, de tirar o fôlego.
Frodo nos deixa com sabias palavras, fugindo de seu mundinho medíocre e explorando esse admirável mundo novo, ele retorna para casa com muitas lições que recebemos da vida somente vivendo-a , coisas que livros, filmes e faculdades não ensinam, coisas que foram extintas em quase todos os lugares, uma coisa chamada honra, que pode ser desmembrada em vários significados, e isso você só vai entender assistindo ao filme ou vivendo a vida no limite desse submundo de violência contida. Definitivamente, Frodo mostrou que sabe brigar, soprando bolhas lindas no céu, que voam tão alto, que alcançam os céus e como sonhos elas murcham e morrem, a fortuna está sempre oculta, eu já procurei em todo lugar, eu sempre soprarei bolhas, bolhas lindas no céu. United! United!
Que hino mais sem sentido, coisa de LSD, de Beatles, vai entender esses ingleses... não digam aos GSE que eu falei isso.

Spoiler: Leve
Nível:
Título original: Green Street Hooligans
Direção: Lexi Alexander
Duração: 109 min

segunda-feira, 4 de julho de 2011

[Livro] A Guerra dos Tronos - As Crônicas de Gelo e Fogo, Livro Um (1996)

Por que todo mundo fica chamando esse livro (e a série) de Game of Thrones? Acho que já superamos a fase em que não havia tradução para o título, e hoje, aqui no Brasil, o livro e a série são chamados de A Guerra dos Tronos. Não é uma tradução literal do título original, eu sei, mas não é um título ruim e nem faz propaganda enganosa sobre os acontecimentos da trama. Pode ter certeza que você encontrará guerras nesse livro e também tronos. Tem mais, vocês já viram um ser humano brasileiro pronunciando o título original? "E aí mano, já leu o Gueimi Ófi Trrones?". Porra, fala A Guerra dos Tronos, porra!

Vi gente reclamando do subtítulo também, que no original é A Song of Ice and Fire, mas que foi traduzido como As Crônicas de Gelo e Fogo. Li uns comentários falando que deveria ter sido traduzido como Uma Canção de Gelo e fogo, pois é mais poético. Na boa, quer poesia vai escutar música do Chitãozinho e Xoróró. Esse livro traz uma história medieval, é sujo, é violento, tem muito sangue e sacanagem, peitinhos e decapitações pra dar e vender, não há tempo pra poesia em meio à guerra.

É o seguinte, parte da história se passa no continente de Westeros, que é governado pelo Rei Robert. Esse rei tem uma espécie de primeiro ministro, que de fato governa o reino enquanto o Robert fica de curtição, e esse primeiro ministro é chamado de A Mão do Rei. Porém, A Mão do Rei morre e Robert precisa de alguém novo para o cargo, e pra isso ele vai até Winterfell convocar seu melhor amigo, Lorde Eddard Stark, para o trabalho. Eddard tem 6 filhos, é casado, já participou de guerras e inúmeras batalhas, então o cara está mais afim de curtir uma vida tranquila. Ele não quer saber de política, mas não adianta: o rei consegue tudo o que quer. Eddard assume o cargo de Mão do Rei e passa a investigar a morte de seu antecessor, e descobre que deu merda e algum puto matou o velho.

Enquanto isso, lá do outro lado do mundo, em outro continente, temos os irmãos Targaryen. Um rapazote e sua irmã Daenerys, que são filhos do rei anterior, que foi deposto por Robert. O rapazote, chamado Viserys, sonha em retornar Westeros e botar pra foder, matar o Rei e recuperar o trono. Para isso ele precisa de um exército, e decide dar sua irmã a um maluco chamado Khal Drogo, um bárbaro poderoso que tem 40 mil homens sob seu comando. Em troca, Viserys espera que Drogo lhe empreste 10 mil homens para recupar o trono.

No extremo norte de Westeros, Jon Snow, filho bastardo de Eddard Stark, inicia sua vida como membro da Patrulha da Noite. O pessoal da Patrulha da Noite deve renegar à vida anterior que tiveram e se dedicar a proteger o reino da invasão de selvagens das florestas que ficam do outro lado da muralha, que é a maior construção já concebida pelo homem e divide e protege o mundo civilizado daquelas terras amaldiçoadas. Nem preciso dizer que o perigo que espreita do outro lado da muralha vai ficar mais ousadinho e querer perturbar nosso herói, Jon Snow.

Apesar de ser uma fantasia medieval, os elementos fantásticos são bem sutis. O autor, George R. R. Martin, não está muito preocupado em criar um mundo e descrevê-lo detalhadamente, pelo contrário. O mundo é apenas um pano de fundo para o verdadeiro tema que ele quer explorar: o ser humano. Exatamente por isso eu recomendo esse livro a todos que curtem uma boa história, pois A Guerra dos Tronos é sobre pessoas, seus sentimentos e ambições, suas forças e fraquezas, e não há tema mais universal do que o Ser Humano.

O livro é narrado sob a perspectiva de 8 personagens diferentes, cada capítulo é dedicado a um deles. A consequência disso é que não há um personagem principal e essas 8 pessoas são muito bem desenvolvidas e aprofundadas. Elas realmente parecem pessoas de verdade, com toda sua tridimensionalidade, defeitos e virtudes. Todos esses personagens fazem coisas fodas e fazem coisas merdas, e isso ajuda a gente a se identificar com eles.

Aliás, enquanto eu lia o livro até esqueci de que a trama se passa em cenários fictícios. Isso porque aqueles lugares são claramente baseados em locações reais. Por exemplo, Westeros é a Europa. Winterfell é tipo a Rússia, King's Landing é a Inglaterra. Pentos é a Mongólia.

Ao norte de Winterfell, tem uma muralha que protege a fronteira da invasão dos selvagens. Obviamente que essas terras selvagens são o México e os selvagens são mexicanos. A muralha impede que os imigrantes ilegais entrem no grande império que é Westeros. George R.R. Martin pegou meio pesado aí nessa alusão ao México, pois o povo de Westeros vive falando que pra lá da muralha os mexicanos não passam de selvagens, monstros e coisas feias. Até aí tudo bem, eu pensei, são apenas os personagens com seus preconceitos absurdos e infundados, o autor George R.R. Martin está fazendo uma crítica à ignorância e, quando os mexicanos aparecerem de verdade, eles serão uma gente bela, morena, apreciadora de boa culinária e música, um povo tropical e caliente, sempre disposto a desfrutar uma boa tequila. Que nada, quando os mexicanos aparecem eles são umas pessoas ignorantes, sujas, feias, ladras e assassinas. E esses são os mexicanos legais, os bonzinhos. Porque os outros são zumbis. Porra, George R.R. Martin!

Isso não é tudo, pois há eunucos no livro. Um desses eunucos é um personagem importante da história e ele é claramente uma representasção do homem judeu. Vejam, o eunuco também sofreu uma mutilação no pênis. Além disso, ele aparece no livro como um cara safado, manipulador e todo mundo acha que ele tem magias e trucagens sobrenaturais. Ou seja, um judeu.

Porra, George R.R.Martin! Eu me pergunto como você irá retratar os negros nos próximos livros, se é que existem negros no seu mundinho de fantasia perfeito.

Tô brincando, gente. O Martin é um velhinho maneiro e não há preconceitos no livro, isso é tudo viagem minha.

Inclusive, uma das coisas que chama atenção no livro é como as mulheres são fortes e importantes. Elas são as personagens mais inteligentes, que tomam as decisões mais difíceis, carregam os maiores fardos e enfrentam os maiores problemas.

Eu não quero falar muito do livro, pra não correr o risco de estragar alguma surpresa. E surpresa é o que não falta nessa história, puta merda. A trama é completamente imprevisível, se prepare.

O que eu posso dizer, sem medo da influência da empolgação de ter acabado de ler o livro agora há pouco, é que é uma das melhores obras que eu já li. São raras as vezes em que li um livro com personagens tão bem escritos, criados por um autor que escreve tão absurdamente bem. A Guerra dos Tronos é uma obra obrigatória, ponto final. Não se deixe assustar pelas quase 600 páginas, pois você será recompensado com cenas de sexo e violência. Ah, e uma ótima história.

No próximo post eu vou falar sobre a série A Guerra dos Tronos, que foi produzida recentemente pela HBO. Vou fazer uma comparação básica com o livro e dar o veredito final e definitivo, que apenas os tolos e levianos questionarão: Qual é melhor, o livro ou a série?

Spoiler: Mosca
Título original: A Game of Thrones - A Son of Ice and Fire
Autor: Eduardo Spohr
Duração: 587 páginas

domingo, 19 de junho de 2011

[Filme] Apenas o Fim (2008)

Sou um cara meio estranho. Cresci assistindo a filmes de terror e coisas do tipo Faces da Morte e de ação ultraviolentos e Cavaleiros do Zodíaco, então tenho um grande apreço por tudo que é violento e perturbador no mundo das artes. Quanto mais violento e absurdo, melhor. Sou um adepto e defensor do tão difamado gênero Torture Porn, e um dia espero escrever um roteiro de filme desse tipo.

Mas, por outro lado, por algum motivo que meus psicólogos ainda não conseguiram descobrir, eu gosto de histórias sobre amor. Merda, eu tenho que admitir que meus filmes preferidos de todos os tempos são a dobradinha Antes do Amanhecer/Antes do Pôr-do-Sol. Então, quando aparece um filme romântico que dizem que é muito bom, fico com muita vontade de ver.

Foi o caso com Apenas o Fim. Infelizmente, não tive a oportunidade de ver esse filme na época, pois passou em poucos cinemas e por pouco tempo. Desde a estréia, então, tenho esperado sair o DVD. Aliás, saiu? Nem sei, ouvi dizer que saiu, mas não consegui achar. O jeito foi esperar cair nas internetes, mas demorou pra caralho pra isso acontecer.

Hoje eu procurei o filme de novo nas interwebz pra ver se já tava disponível. E fiz isso porque esta noite tive um sonho meio exótico, em que eu estava assistindo a Apenas o Fim. Mas no meu sonho, o filme era uma comédia nonsense pornô, com um péssimo roteiro e atuações toscas, tinha várias cenas de sexo de gosto duvidoso. Acordei obcecado, pois eu precisava assistir ao filme de verdade, pra ver se era mesmo uma comédia nonsense pornô.

OK, então é o seguinte, Apenas o Fim é sobre o término do namoro de dois jovens criados a leite-com-pêra, estudantes da PUC. A menina, interpretada pela Erika Mader, vai viajar pra algum lugar e tem só uma hora pra passar com seu fututo ex-namorado, interpretado pelo Gregório Duviver. Ela propõe pra ele duas opções: ou passam essa hora conversando ou fazendo sexo selvagem. O fato do cara escolher conversar só exemplifica o futuro tedioso a que todo relacionamento está fadado. Quanto mais tempo passa, menos sexo e mais conversa e comida serão a rotina do casal. Então, meu amigo, se você gosta de muita comida e conversa, muitos anos de relacionamento estável são a coisa perfeita pra você.

Opa, me desviei um pouco da sinopse, eu faço isso às vezes nas críticas. Durante o filme, são intercaladas cenas em preto e branco, que mostram o casal no passado, quando ainda eram felizes em um namoro bonito. Interessantemente, mesmo nessas cenas não há qualquer indício que, mesmo nos momentos de paixão e auge do relacionamento, eles faziam sexo. Estão sempre vestidos na cama, falando alguma bobagem cute cult nerd. Chega ao ponto de que, em um momento da história, eles têm um breve diálogo sobre sexo, em que o cara pergunta pra mina sobre o desempenho dele na cama, como se pra mostrar pros telespectadores que sim, um dia eles transaram.

Apenas o Fim tem dois grandes problemas: roteiro e a atuação da Erika Mader. Esse é um filme sobre amor, e são dois personagens conversando durante toda a história. O formato do filme é idêntico aos meus favoritos do coração Antes do Amanhecer/Antes do Pôr do Sol, em que um casal anda e convera, anda e conversa, conversa e anda o tempo todo. A diferença é que essa dinâmica nos filmes do Linklater funciona perfeitamente. Isso porque os diálogos dos personagens parecem reais, são duas pessoas de verdade conversando sobre todo tipo de assunto, de forma sincera. Isso cria uma conexão forte com o espectador, que acredita que aqueles dois estão se apaixonando e, de certa forma, nós acabamos nos vendo um pouco neles, ou desejando que um dia a gente conheça alguém e consiga uma identificação mútua como o casal do filme consegue.

Mas, no Apenas o Fim, isso não acontece muito bem. Grande parte dos diálogos são piadinhas com referências nerds. Parece que o diretor/roteirista tava numa vibe meio Tarantino nerd, e quis enfiar a maior quantidade de referências da nerdaida em diálogos pretenciosamente sagazes. Ficou meio merda. Ficou meio merda porque não parece natural, não parece que são duas pessoas de verdade conversando. Porra, é muito papo furado estilizado e, nesse caso, não ficou legal.

E não ajuda em nada o fato de a Erika Mader meio que destruir o filme, pois a atuação dela aqui é muito ruim. Todas as falas dela soam decoradas, sem naturalidade nenhuma. Os coadjuvantes que aparecem durante a história, com excessão do Marcelo Adnet, são consideravelmente menos famosos que ela e são infinitamente melhores atores. Vai entender, o mundo é injusto e temos aceitar a Erika Mader como protagonista porque não tem outro jeito.

Que bom que o Gregório Duviver é um excelente ator, e ele carrega o filme nas costas. Ele sim, soa sincero no que fala, é engraçado mesmo falando esse monte de bobagem nerd e porra, senti peninha dele. Nesse ponto o filme funcionou muito bem.

Apesar de eu não ter gostado das partes nerds forçadas, o filme fica muito bom quando o roteiro foge desse tipo de diálogo e aposta em coisas mais humanas. Sempre que o cara fala sobre alguma história pessoal dele, ou quando o casal se lembra de tempos passados, Apenas o Fim fica muito bom e atinge o objetivo de fazer a gente sentir alguma coisa pelos personagens. Ah, e eu já disse que os coadjuvantes são ótimos? É, eles realmente ajudam a deixar tudo mais divertido.

Eu achei um filme mediano. É curto e agradável de assistir, e só. Foi filmado com pouca grana e com um cineasta estreante no comando, mas é muito bem dirigido. Outro ponto positivo é que Apenas o Fim foge dos temas que tradicionalmente são tratados no cinema brasileiro, ou pelo menos tem uma linguagem diferente. Recomendo se você não tem muita expectativa e não tem nada pra fazer, ou se você for um nerd criado à base de Nerdcast e Judão, aí você vai adorar cada segundo do filme.

PS: Véi, fiquei puto porque o diretor/roteirista descaradamente roubou uma piada minha. Aquela piada do Transformers/Goddard foi composta por mim há alguns anos em um texto do blog Disque P Para Pornô. Só não vou linkar aqui o texto porque tô com preguiça de procurar.

PS2: Notei que os peitos da Erika Mader estão um pouco menores nesse filme. Se vocês notarem hoje em dia, são enormes. O que aconteceu? Silicone? Não parecem siliconados, talvez ela esteja tomando muita coca-cola nos voos que ela faz no eixo New York/Rio.

PS3: Link pra download do filme: http://www.megaupload.com/?d=W5WDBHCY (Por favor, FBI - não me processe!)

Spoiler: Mosca
Título original: Apenas o FIm
Diretor: Matheus Souza
Duração: 80 minutos

terça-feira, 24 de maio de 2011

[Livro] A Batalha do Apocalipse (2010)

De vez em quando eu leio livros, dessa vez foi o best seller A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr. Terminei de ler o livro no sábado, supostamente o dia do Arrebatamento, em que os bons iriam para o céu e o resto ficaria aqui para morrer horrivelmente no fim do mundo, que aconteceria em outubro.

Eu nem saquei que estava lendo esse livro justo no dia do Arrebatamento. Fiquei pensando aqui se por um acaso eu fosse arrebatado, será que haveria livros no paraíso? E se houvesse, será que haveria todos os livros do mundo ou rolaria uma censura em obras do tipo "livros que possam causar pensamentos pecaminosos e jogar os justos que os lerem pro inferno"?

De qualquer forma, eu corria o risco de A Batalha do Apocalipse ser o último livro que eu leria, caso fosse arrebatado. Eu ficaria meio decepcionado porque, apesar de ter gostado do livro, certamente passar o meu último dia na terra lendo não é o que imagino pra mim.

Chega de papo furado e vamos pra sinopse. O livro é isso aí, a batalha do apocalipse. É isso o que acontece no livro, não há muita frescura na trama. Acompanhamos o personagem principal, o anjo Ablon, que foi expulso do paraíso e deve caminhar sobre a Terra até o dia do julgamento final, quando ele descobrirá seu papel na última grande batalha antes de tudo se foder.

A trama é meio óbvia, pois essa história de apocalipse talvez seja um dos temas mais antigos abordados pela literatura humana. As pessoas têm um fascínio inacreditável com o fim dos tempos, e isso é triste. É triste porque pessoal, acordem. O mundo não vai acabar tão cedo e com certeza não vai ser na nossa geração. Acredito que um dia a raça humana será extinta, mas esse dia está tão longe que é melhor desistirmos de ganharmos um camarote vip pra assistir ao fim de nossa espécie. Pessoas são piores que baratas. Somos muito mais resistentes que esses insetos e não vamos sair deste planeta a menos que ele se exploda.

Mas pra consolar vocês, fascinados com o fim do mundo, fiquem tranquilos porque desastres não vão faltar enquanto vivermos. Veremos muita gente morrer nos mais variados tipos de tragédias e, com um pouquinho de sorte, quem sabe vocês não participem de um desastre ou causem algum?

A diferença do livro do Eduardo Spohr é que acompanhamos o fim dos tempos sob a perspectiva dos anjos. É um olhar diferente sobre o assunto e isso, por si só, é bom. Mas não acho que o apocalipse sob o ponto de vista de seres imortais seja lá tão interessante. Simplesmente não há a mesma tensão e os anjos não sofrem dos problemas que um fim de mundo causaria na sociedade. Acho bem mais interessante acompanhar um cara comum no fim do mundo, tendo que evitar os desastres naturais, as pessoas, seu desespero pra salvar familiares etc. Mesmo sendo uma idéia já manjada, ainda há pontos interessantes que poderiam ser explorados. Sem contar o fato de rolar uma identificação maior entre a gente e um protagonista que seja parecido conosco.

Agora, anjos... Não dá pra se identificar muito com eles. Os caras não têm família, não tão nem aí pra esse tipo de coisa. Mesmo que nesse livro os anjos tenham motivações boas e objetivos a alcançar, não me preocupo tanto com o destino de um personagem que pode matar 500 anjos NA PORRADA e SOZINHO.

Outro ponto que é meio irritante no livro são os flashbacks. Esse tipo de ferramenta é muito boa se for bem usada, mas quando mal utilizada, é um pé no saco. Vamos a um exemplo de flashback bem utilizado: na série Lost. Quem já viu Lost sabe que boa parte da série é contada em flashbacks. Nesse caso funciona porque os personagens são misteriosos, as motivações deles são misteriosas e, para entender quem eles são e porque agem como agem, precisamos saber o que eles faziam no passado.

Em A Batalha do Apocalipse, nós já sabemos desde o começo quem é Ablon e suas motivações. Porra, quem ele é e o que quer estão descritos na sinopse. E durante o livro todo é pontuado que Ablon é um anjo, portanto não possui livre arbítrio. Então não há mistério nenhum acerca do personagem, pois ele sempre age do mesmo jeito em todas as situações. Como o livro começa nos dias atuais, não importa os perigos que Ablon passe nos flashbacks, sabemos que ele vai sobreviver. Boa parte desses flashbacks é focado em como Ablon se fode e o que ele faz pra se recuperar e, numa narrativa não-linear, isso não importa. Porra, sabemos que o cara tá vivão lá nos anos 2.000, então narrar uma aventura em que ele quase morre no passado torna a leitura um pouco chata porque não há tensão nenhuma que possa ser criada.

Claro, o objetivo do flashback pode ser estabelecer a relação entre os personagens, para que a gente os entenda. Nesse sentido, o primeiro flashback, que mostra como Ablon conheceu a bruxa Shamira, é interessante. Mas não precisava ser tão longo, pois a relação dos dois é bem simples. Sem contar que nesse flashback somos apresentados ao rei imortal da Babilônia e se bate muito na tecla da imortalidade do mano, logo, imaginei que ele apareceria mais tarde e seria importante pra história. Que nada, o cara só aparece mais uma vez, bem brevemente, e não adiciona coisa alguma.

O livro seria melhor se das duas, uma: os flashbacks fossem menores, ou se a história fosse linear. Se a trama começasse nos tempos antigos e progredisse até os dias atuais, o ritmo do livro seria melhor. Pois saberíamos que o objetivo do Ablon é sobreviver até o dia do apocalipse, então toda vez que ele se fodesse e quase morrese, ficaríamos tensos e esperando ele se livrar dos perigos em que se meteu.

Pra piorar, o único flashback que seria útil não acontece. Durante o livro, somos apresentados a Orion, o antigo rei de Atlântida. Orion é um anjo caído que lutou ao lado de Lúcifer e foi expulso do paraíso. Esse cara tem uma grande amizade com Ablon, que aparentemente surgiu quando eles viviam em Atlântida. Porra, por que não mostrou um flashback disso? Só se fala que os dois são amigos e fica por isso só. Então, quando Orion toma uma decisão heróica no fim do livro, não dá pra se importar muito com o que ele faz, pois não entendemos o peso da amizade dele com o Ablon, já que esse aspecto não foi bem desenvolvido.

Além disso, o livro é bem previsível, com conceitos bem familiares a quem já leu Neil Gaiman, já viu Cavaleiros do Zodíaco e Star Wars. Eduardo Spohr não arrisca em nada em momento algum, tudo acontece de acordo com as regras pré-definidas da estrutura básica de uma história. E até nesse básico ele erra um pouco. No começo do livro Ablon tem que ir ao inferno trocar uma idéia com Lúcifer. Temendo o perigo do inferno, Ablon pede que Shamira faça uma macumba maluca pra protegê-lo. E aí lemos um longo capítulo que descreve todo o ritual de macumba que ela faz. No final, ela manda duas mandingas no pobre anjo renegado. Uma pra proteger a mente do cara caso alguém o hipnotize e faça o mano comer alho, outra pra ressuscitá-lo em caso de morte.

Porra! Então sabemos que em algum momento, provavelmente na batalha final, o puto do Ablon morrerá e voltará a vida. Isso é péssimo porque a cena da morte de um herói é sempre foda, sempre abala o leitor pois pensamos que tudo está perdido. Claro, o herói sempre volta de alguma forma, mas se o momento é bem escrito, não sabemos COMO o cara vai voltar. Em a Batalha do Apocalipse, esse grande momento da história é arruinado porque já sabemos que Ablon tem uma macumba muito louca de ressuscitamento.

Tá bom, já falei bastante mal do livro. Mas como disse no começo, eu gostei da história. Os pontos positivos superam os negativos de longe. Apesar do livro ser lento em alguns momentos, a trama é bem divertida de ler. Isso graças às excelentes cenas de ação, que são muito bem descritas. A porradaria come solta e Ablon é um badass motherfucker de primeira categoria. O cara é um personagem carismático, apesar de ser meio CDF. A história dele é interessante e traz profundidade ao seu caráter. As relações entre os personagens, no geral, são bem construídas, mesmo que algumas delas sejam clichês.

O romance entre Ablon e Shamira é clichezinho e previsível, mas bem construído. Como ambos são bons personagens, entendemos porque os dois se apaixonam, e isso traz força pra história.

Já a relação de Ablon com seu arqui-inimigo, um anjo malvadão que esqueci o nome, é MUITO clichê e não tem profundidade nenhuma. Ablon é o bonzinho incorrigível, o vilão é pura maldade. Mas pelo menos rola boa porradaria entre os dois. Outro ponto positivo é que todos os personagens têm personalidade marcante, por mais breve que sejam suas participações no livro.

No fim das contas, A Batalha do Apocalipse acaba sendo bom. É o primeiro livro do Eduardo Spohr, então pra um iniciante no mundo literário tá legal. Dá pra entender porque é um best seller, porque as pessoas gostaram e é muito legal ver um livro desse tipo ser tão popular. É bem diferente do que se costuma publicar por aqui e certamente melhor do que a maioria dos grandes lançamentos que ficam entre os mais vendidos.

Só faltou mais sexo no livro. O anjo Ablon passa milhares de anos na Terra e não pega ninguém, isso é inaceitável.

Spoiler: Galo
Nível:
Título original: A Batalha do Apocalipse: Da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo
Autor: Eduardo Spohr
Duração: 569 páginas

segunda-feira, 16 de maio de 2011

[Filme] Arrancada Final (2004)

Lá estava eu com o dinheiro contado para pagar a conta de luz, tinha acabado de sair do posto onde fui comprar cigarros, peguei o Lucky Strike para economizar, o Marlboro custa 50 centavos a mais. E, por alguma maldição do destino, vi uma locadora com a placa de falida vendendo todo o seu estoque, infelizmente cheguei tarde e todos os filmes de bang bang tinham sido levados, a verdade é que essa era a parte boa, pois só gastei R$30,00, a 5 conto cada um. Imagina se eu fosse o primeiro da fila? Ia ficar sem luz e sem água no mês. Para a minha sorte, cheguei em casa em tempo de assistir uns 3 antes de cortarem a luz.

Arrancada Final é do mesmo diretor de Velozes e Furiosos e Triplo X, então já sabemos o que esperar só em ver a capa, esportivos importados super caros com motores ultra preparados e um nitro para acabar com a emoção do pega e, como sempre, um bólido clássico para fazer a alegria de alguns aficionados como eu. Galãs boyzinhos com cara de viado, uma ou duas modelos magrinhas atriz porno pra fazer a cabeça do público e poucos ou nenhum ator condizente com o papel.
Fugindo um pouco dos padrões de filmes modernos sobre carros e como que a Pontiac tivesse colocado alguns milhares de dólares na produção, o filme faz uma homenagem ao Pontiac GTO, grande clássico entre os muscles. Começando situado no inicio dos anos 70 com uma perseguição policial a um GTO 1969, o filme parece prometer, uma referência aos clássicos de ação dos anos 70, que não leva mais que alguns segundos para nos decepcionar, começa ferrando com a trilha sonora ruim e os atores sem feeling, o figurino até que ficou legal, mas a perseguição é rápida e sem muita ação. No desenvolver do filme, vemos clichês de intrigas entre pai e filho e rebeldias sem causa, um pouco comedida, mas não muito convincente, ainda mais por ser uma história sobre 3 gerações de uma familia. Tem conteúdo para uma boa história, mas o roteirista e o diretor não sabem conduzir e o filme acaba ficando numa corda bamba entre drama e ação sem conseguir focar em nenhum dos dois, o que deixa a desejar em todos os aspectos, sem aprofundar no drama da vida de nenhum dos personagens, nem levar a uma ação com cenas de perseguições e porrada emocionantes. Algumas cenas causam uma pontada de comoção com filosofias legais que não são levadas a cabo, tentam criar um personagem ex-presidiário, mas fica faltando muito para chegar lá, um cara que passa 30 anos na cadeia levar desaforo pra casa de dois moleques, bem, não é isso que se espera em um filme de ação. Perseguições com um GTO 2004 sem explosões, batidas, pessoas mortas e nenhum sangue. Ruim. Nenhuma cena de sexo caliente ou stripers fazendo polydance. Ruim. Heróis sem armas e nenhuma cena de pancadaria escrota. Ruim. A história é rápida, corrida para caber em uma hora e meia de filme, deixa muita ponta inacabada, muito a desejar. O que ainda salva é o drama da vida de Ronnie, protagonista da história, que viu a mulher morrer, foi preso e teve que deixar seu filho para ser criado pelo "melhor amigo". Motivado pelo ódio ele suporta 30 anos na prisão só para ter a sua vingança, em uma cena não tão convincente e nem muito imprevisível, mas impactante de fato, um final não tão violento, mas que finalizou o drama do jeito que deveria ser. Só é uma pena e uma puta facada no coração ver um clássico tão foda ser despedaçado daquele jeito.
Bem, não é o tipo de filme hetero que você espera assistir num domingo a noite, mas é um bom cine pipoca para assistir com o seu filho como aprendizado inicial sobre carros e velocidade. Antes de ele chegar aos 4 anos para assistir Mad Max. E, claro, esse tipo de filme sempre te faz querer acelerar o seu carro mil sonhando com um bendito v8.

Spoiler: Médio
Nível:
Título original: The Last Ride (TV)
Direção: Guy Norman Bee
Duração: 84 min

domingo, 15 de maio de 2011

[Filme] Velozes & Furiosos 5 - Operação Rio (2011)

A parte mais chata de escrever críticas de filmes é fazer a sinopse. Hoje tô com bastante preguiça de fazer isso, mas ainda bem que a trama de Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio é bem simples.

Brian O'Conner (Paul Walker, de Velozes e Furiosos 4), Mia Toretto (Jordana Brewster, de Velozes e Furiosos 4) e Dominic Toretto (Vin Diesel, de Velozes e Furisos 4), ainda fugitivos da lei, se encontram no Rio de Janeiro e começam a armar trambiques. Surge a oportunidade deles roubarem o chefão corrupto da cidade e, para isso, montam uma equipe com personagens dos filmes anteriores para surrupiarem 100 milhões de dólares. Porém, o policial Luke Hobbs (Dwayne " The Rock" Johnson, de Velozes e Furisos 5 - Operação Rio) tá afim de prender eles e dar um pau no Vin Diesel.

A melhor parte da série Velozes e Furiosos sempre foi os personagens. Não que eles sejam muito profundos e enfrentem problemas existenciais, mas são carismáticos. Dom é o ladrão casca grossa honrado. Brian é o policial que inicialmente foi imcubido da tarefa de prender Dom, mas acaba criando uma grande amizade com o cara. E, durante o decorrer dos filmes, somos apresentados a todo tipo de trambiqueiro malandrilson charmoso. Isso somado às cenas de ação, que sempre foram muito bem feitas. No final, temos filmes que, mesmo no auge do ridículo (+ Velozes + Furiosos), são bem divertidos de assistir.

Não é diferente no quinto filme da franquia, que traz todos os personagens mais legais dos filmes anteriores nas melhores piadinhas sem graça e cenas de ação mais fodas de todos. Tá, é meio irritante ter que ouvir aquele português esquisito que o pessoal fala no filme. Tem umas cenas de gosto duvidoso, como quando Dom grita pro The Rock "THIS IS SPARTA". Não, zoeira. Ele grita "THIS IS BRAZIL" e todos os 500 brasileiros em cena sacam armas e apontam na cara do personagem do The Rock. Tudo bem que o Dom quis dizer que isso aqui é Esparta, ou melhor, Brasil, e que ele conhece todo mundo. Mas na hora dá a impressão que ele quis dizer que todo mundo aqui anda armado. Aqui é o Brasil, cara, não os EUA.

Mas olha, o filme é isso aí que todo mundo espera. Cenas de ação extremamente bem dirigidas e emocionantes, carros DE VERDADE capotando e explodindo e nossos queridos personagens se envolvendo em altas enrascadas. Se você gosta de filmes de ação, vai curtir o filme.

Eu sei que esse é um blog sobre cinema, mas tô meio afim de fazer algumas reclamações. Cara, eu adoro cinema. Cadeiras confortáveis, telão, som de primeira, enfim, amo a imersão que só o cinema pode proporcionar ao assistirmos a um filme.

Por outro lado, odeio cinema. Odeio porque o cinema é frequentado por pessoas, e pessoas têm um talento incrível para me irritar. Eu prefiro assistir a sessões mais vazias, pois caso contrário sempre tem um filhodaputa pra me encher o saco. No caso de Velozes 5, todo mundo me irritou. O casal do meu lado tava foda. Caras, se a namorada de vocês não gosta de filmes de ação, não as levem pro cinema. Deixa elas em casa dando pro Ricardão mesmo, pois é melhor do que elas ficarem irritando bons cidadãos como eu. Puta merda. A mulher do cara ficava fazendo comentários do tipo: "Nossa, que mentira essa cena!". Filha, geralmente cinema é ficção, ficção conta mentiras, não gosta de mentiras, se mata. Ela perguntava todo tipo de questões idiotas e o namorado sempre respondia. Por que dois seres humanos pagam 20 conto num ingresso pra ficar conversando durante a projeção? É mais barato conversar na pracinha da esquina, eu acho.

No filme, tem dois caras latinos. São personagens meio chatos, que só aparecem pra fazer piadinha. Mas TODAS as vezes que eles apareciam, antes mesmo deles dizerem uma palavra sequer, um maluco lá na sala gargalhava absurdamente. E todo mundo no cinema ria absurdamente com qualquer tentativa de piada do filme. O que acontece quando as pessoas adentram uma sala de cinema? Será que o projetor emite algum tipo de radiação que promove a extinção em massa de milhões de neurônios no cérebro humano e, como resultado disso, o povo fica retardado quando vê um filme? Eu prefiro acreditar nessa teoria, pois me assusta a idéia de que existam tantos seres humanos tão desprovidos de bom senso vivendo na sociedade. Porque se existirem, fudeu, não há mais esperanças MESMO pra nossa espécie. Sério, Deus vacilou. Tentou salvar a alma humana tentando despertar a bondade no nosso ser, mas o capeta ganhou despertando a burrice e senso de humor atrofiado nas pessoas.

Desisto de ver filme no cinema. Faço isso pela minha própria integridade física, porque após uma sessão, a única maneira de aplacar a minha fúria é ir ao bar mais próximo e consumir quantidades imensas de álcool. Meu fígado não aguenta mais.

Dito isso, o filme é bom.

Spoiler:
Nível:
Título original: Fast Five
Direção: Justin Lin
Duração: 130 min

quarta-feira, 27 de abril de 2011

[Filme] A Ilha do Medo (2010)

É o seguinte: um policial chamado Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio, aquele do Diário de um Adolescente e A Praia) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo, aquele do De Repente 30) recebem a missão de investigar o desaparecimento de uma paciente do hospício que fica em Shutter Island. Não lembro se eles traduziriam Shutter Island pra Ilha do Medo nas legendas do filme ou na versão dublada, mas seria legal um hospício sinistro que fica num lugar chamado Ilha do Medo. Seria perfeito cinematograficamente, mas acho que seria impossível um lugar com esse nome não passar por umas dificuldades de vez em quando, tipo um cano furado, ratos, goteiras, privadas entupidas, desaparecimentos e os ocasionais assassinatos.

O problema é que o desaparecimento dessa paciente foi meio estranho. Como assim ela fugiu de uma cela trancada? Não há sinais de arrombamento. As paredes da cela são tão espessas que aguentariam uma bala de canhão. Como ninguém viu ela fugindo? Por que ela fugiu? Pra onde ela foi? Ela está viva? Ela é gostosa? Se ela for gostosa, será que Teddy Daniels conseguirá superar seus traumas (ele perdeu a esposa, que foi assassinada) e o clima tenso da ilha, a falta de bares e praias românticas, para que possa xavecar a maluca fugitiva e viver noites de sexo selvagem com ela? Bom, não sei. Na verdade eu sei, porque vi o filme. Não vou dar spoilers nem nada.

A primeira coisa que chama atenção neste filme é que é foda pra caralho. Extremamente bem dirigido, tem umas cenas em que o Teddy sonha que são incríveis e bizarras. A tensão da história é muito bem conduzida, dá pra tomar uns sustinhos aqui e acolá. E as atuações, todas as atuações, são excelentes. O que só melhora pelo fato de o filme ter ótimos diálogos. Eu gostei bastante do encontro do Teddy com o psiquiatra alemão, onde o doutor fica provocando o Teddy, tentando analisá-lo, enquanto o policial mostra seus superpoderes investigativos pra bloquear os ataques psquiátricos do alemão. E considerando que é sugerida a possibilidade do psiquiatra alemão ter sido um nazista, podemos interpretar essa cena como um embate entre as forças da coalizão e o império nazista, Bem e o Mal, Deus e o Capeta, Ying e Yang, silicone e peitos naturais, Palmeiras e Corinthians. Pra mim, esse embate foi vencido pelas forças da coalizão, o Bem, Deus, peitos naturais e Palmeiras. Ying e Yang empataram.

Mas essa competência na direção já era esperada, afinal, o filme é do Scorsese. Tirando essa beleza toda e o fato de que sim, A Ilha do Medo está bem acima da média dos filmes que andam saindo por aí, não achei lá grande coisa. Um filme de suspense é bom quando... bem, quando te surpreende. Se não há a surpresa, o filme desmorona. Se a inevitável reviravolta no roteiro for descoberta antes do fim da história, a coisa perde a graça. Isso QUASE acontece em A Ilha do Medo.

Vejam bem, desde que o Teddy começou a ter pesadelos bizarros, já me bateu um medinho. Não medo dos pesadelos, mas de como a história se desenrolaria. Eu simplesmente combinei os fatores: temos um policial investigando um estranho desaparecimento num hospício localizado numa ilha (do medo); em certo ponto do filme surge a questão de que possa haver uma conspiração nessa ilha e que tá todo mundo envolvido; o policial tem sonhos estranhos e alucinações... Fala sério, já dá pra imaginar onde isso tá indo, né? E o pior é que vai mesmo nessa direção e acaba sendo um pouco decepcionante.

Esse tipo de reviravolta já tá meio batida, meio clichê. Mas isso não é importante, ser clichê não importa. O problema mesmo é quando toda a estrutura do filme depende da reviravolta. E se você descobre como o filme vai terminar, é melhor que a história tenha uma profundidade maior e outros elementos que te façam ficar satisfeito. A Ilha do Medo é bom até certo ponto e provavelmente seja o caso de apreciar mais a viagem do que a chegada. Ainda assim, achei o filme superficial. O drama do Teddy é bem parecido com o do personagem do DiCaprio em A Origem, e eu achei que no filme do Nolan o drama entre marido e esposa foi melhor explorado, com mais profundidade.

Uma pena, porque a premissa da história é muito boa. Quando sugerem uma possível conspiração na ilha, quase esqueci que eu já sabia como tudo ia terminar. Se eles tivessem seguido essa rota, explorado a tal conspiração... seria um filme excelente. O jeito que o roteirista resolveu as inúmeras questões levantadas no decorrer da trama pareceu preguiçoso. Tipo "sabe aquele personagem lá que o mano Teddy encontrou e trocou mó idéia foda com altas revelações? Então..." Fraco.

Mas apesar de eu não ter gostado muito do filme, ainda o recomendo. A Ilha do Medo quase não desmorona porque é bem dirigido pra caralho, tem boas atuações e porra, talvez eu esteja dando uma de espertalhão. Talvez o desfecho não seja tão óbvio e, se for, talvez não seja tão ruim quanto eu achei.Talvez a reviravolta nem importe tanto, no final das contas. Então assista A Ilha do Medo, é sua obrigação pois é uma obra Scorsesiana.

Só vou dar um spoilerzinho básico: no primeiro encontro da maluca fugitiva com o Teddy, pra nossa surpresa percebemos que ela, se não gostosinha, pelo menos daria um caldinho. E o Teddy utiliza a velha tática de se passar pelo marido falecido pra pegá-la. Não dá certo.

Spoiler: Pena
Nível:
Título original: Shutter Island
Direção: Martin Scorsese
Duração: 138 min

segunda-feira, 25 de abril de 2011

[Filme; Comics] Watchmen (2009; 1986 - 87)

Quis custodiet ipsos custodes?

Devem estar pensando que essa crítica chegou em demasia atrasada, mas a verdade é que odeio tendências, sempre espero a poeira e a agitação de algo recente baixar para eu poder assistir ou ler ou comer, assim meu cérebro fica mais limpo e centrado no objetivo, e posso degustar tal iguaria sem me preocupar com o que algum filhodaputa tenha comentado sobre e livre da ansiedade momentânea conseguinte ao lançamento. Mas como o objetivo desse blog é enrolar vocês e a mim mesmo, vamos começar a verborragia pelo começo.
Há alguns anos atrás, uns 4 aproximadamente, me deparei com uma obra que a principio, confesso, achei um tanto enfadonha, não por realmente ser chata, ruim, tosca ou disputar páginas com o livro do Musashi, a verdade é que aos poucos fui sacando sua complexidade e percebi o quanto seria uma leitura cansativa, que exigiria muito da mente. Não era um simples quadrinho, era muito mais, e quem já leu sabe que não é nenhum exagero. Em cada quadrinho há uma sacada inteligente, sarcástica ou referencial, não tem como ler por pedaços, é necessário ler como um todo, as imagens se entrelaçam com os textos e com referências históricas, é uma leitura difícil para quem quer degustar e se esmerar nos mínimos detalhes. Requer toda uma preparação física e psicológica, e quanto maior o conhecimento de vida, teórica e prática, mais completa será a leitura. Considero como a literatura mais completa e complexa da 9ª arte. Levei cerca de um ano para terminar de ler a obra máxima do Alan Moore, um mês para degustar com meus neurônios, minhas células epidérmicas e com meu pênis cada edição. Watchmen foi em verdade escrito pelos personagens, eles foram encarnados como uma perspectiva subatômica estrutural do Dr. Manhattan, a loucura paranóica investigativa e lógica do Rorschach, a inteligência cataclismica filantrópica insensível de Mr. Veidt e o sarcasmo sanguinário do Comediante, uma verdadeira piada crítica sobre como anda a humanidade e sua natureza, se perdendo através de um universo paralelo, um tanto dieselpunk, em que a guerra fria chega ao seu auge com a iminência de uma terceira guerra mundial quando o governo americano decreta o defcon 1 e os relógios contando 1min pra meia noite. Misturar uma realidade que começou no fim da segunda guerra, com o surrealismo dos quadrinhos em uma linha de acontecimentos extremamente planejadas e bem enraizadas em fatos, foi uma tremenda jogada de mestre. Alan Moore conseguiu criar um universo inteiro, partindo de premissas remanescentes a partir da queda de Hitler e finalizando no ano de 85, o decorrer de quase 40 anos dentro de 12 edições que tinham o intuito de ressuscitar alguns personagens mortos da DC em uma mini-série sem muita expectativa. Watchmen foi uma grande surpresa, não dá para resumir ou dar uma mínima noção do que seja em uma folha. Watchmen é um verdadeiro drama psicológico, leva a mente humana a extremos, é longe de ser um clichê sobre heróis e humanos ou um melodrama sobre escolhas de vida ou morte, é uma obra filosófica que destrói todos os paradigmas de que quadrinhos precisam ser maniqueistas, bom e mal, herói e vilão, ele quis fazer uma sátira com essas idéias preto e branco, de quando a televisão ainda não era em cores, isso estava obsoleto, perdido no passado, a mensagem de Alan Moore é que não há deuses ou demônios em posse do controle da humanidade, somos nosso próprios vilões, fazemos nossos próprios horrores, selvagens, e às vezes temos que fazer escolhas entre a vida e a vida e muitos não aguentam a pressão de conviver com a culpa e preferem ser relegados a não-existência (bem, não sem antes deixar a sua marca), isso é ser humano.
Quando eu terminei de ler, tive uma certeza absoluta, tá aí um quadrinho que nenhum filme jamais vai conseguir competir, e estava bem no inicio da febre de Hollywood por adaptações da nona arte para a sétima. Bem, eu estava definitivamente enganado. Assim como tem seu gênio nos quadrinhos, o cinema acertou em cheio escolhendo um gênio paras as telas.
Quando vi pela primeira vez a imagem dos uniformes reluzentes e enfeitadinhos, imaginei que estavam seguindo a nova tendência dos filmes de quadrinhos e deixando de lado os originais colantes foscos de tecido cru. Me enganei de novo, era só mais um pedaço da idéia genial na criação do filme. Os minutemens da década de 40 usavam os colantes oldschool, bem, o tempo passa e a tecnologia muda, era a idéia do diretor.
Apesar de não ser um filme noir, ele leva aquela sensação vintage com coloração turva de cores primárias e jogo de luz e câmera bem focados. Os cenários e figurinos não ficam atrás, tudo muito bem planejado, talvez  um tanto enquadrado no estilo dieselpunk, com fornos de microondas, televisores bojudos e computadores como os antigos da IBM. Visuais de época, penteados, vestimentas e apetrechos, foi tudo milimetricamente pensado. Os atores também foram bem escolhidos, garotas no melhor estilo pin-up e nada de boyzinhos com cara de galã chupa-pinto, a única excessão foi o Ozymandias, que tinha um aspecto meio abaitolado que não condizia com o personagem executivo bilionário Matrix.
Mas com a trilha sonora, putaquemepariu, ele se superou, foi a melhor trilha sonora já selecionada para um filme na história do cinema, que já começa arrebatando corações com cenas rapidamente resumidas ao som de The Times They Are a-Changin’ do Bob Dylan, ou o sexo semi-explicito ao som de Hallelujah do Leonard Cohen e terminando de fuzilar nossos cérebros com o enterro do Comediante ao som de Sound of Silence por Simon e Garfunkel. A versão cover do Dylan, All Along the Watchtower, pelo Jimi Hendrix também aparece, assim como Me and Bobby McGee da Janis Joplin e alguns clássicos do Jazz como Nina Simone, Billie Holiday e Nat King Cole que não deixam nada a desejar, tudo escolhido com muito esmero e bom gosto.
Em 2h e 35min de filme, Zack Snyder, que já havia revolucionado o cinema com 300 (que também terá seu espaço aqui no blog), conseguiu provar mais uma vez que é um mestre nas artes visuais e que poderia adaptar Watchmen para as telas com maestria, conseguindo ao mesmo tempo agradar fãs xiitas, fazendo uma obra muito próxima do original, e dando a volta por cima de dificuldades de adaptação com sagacidade, originalidade e aptidão. Definitivamente genial, seu filhodaputa.
Mas deixando de lado a babação de ovo e sendo sincero, uma coisa eu não gostei no filme, senti a falta do polvo gigante no final. E por motivos de tempo, os contos do cargueiro negro só podem ser vistos na versão do diretor com quase 4h de filme, cansativo pra cacete, mas vale a pena.

Spoiler: Galo
Nível:
Título original: Watchmen
Direção: Zack Snyder
Escritor HQ: Alan Moore 
Duração: 163 min