quarta-feira, 27 de abril de 2011

[Filme] A Ilha do Medo (2010)

É o seguinte: um policial chamado Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio, aquele do Diário de um Adolescente e A Praia) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo, aquele do De Repente 30) recebem a missão de investigar o desaparecimento de uma paciente do hospício que fica em Shutter Island. Não lembro se eles traduziriam Shutter Island pra Ilha do Medo nas legendas do filme ou na versão dublada, mas seria legal um hospício sinistro que fica num lugar chamado Ilha do Medo. Seria perfeito cinematograficamente, mas acho que seria impossível um lugar com esse nome não passar por umas dificuldades de vez em quando, tipo um cano furado, ratos, goteiras, privadas entupidas, desaparecimentos e os ocasionais assassinatos.

O problema é que o desaparecimento dessa paciente foi meio estranho. Como assim ela fugiu de uma cela trancada? Não há sinais de arrombamento. As paredes da cela são tão espessas que aguentariam uma bala de canhão. Como ninguém viu ela fugindo? Por que ela fugiu? Pra onde ela foi? Ela está viva? Ela é gostosa? Se ela for gostosa, será que Teddy Daniels conseguirá superar seus traumas (ele perdeu a esposa, que foi assassinada) e o clima tenso da ilha, a falta de bares e praias românticas, para que possa xavecar a maluca fugitiva e viver noites de sexo selvagem com ela? Bom, não sei. Na verdade eu sei, porque vi o filme. Não vou dar spoilers nem nada.

A primeira coisa que chama atenção neste filme é que é foda pra caralho. Extremamente bem dirigido, tem umas cenas em que o Teddy sonha que são incríveis e bizarras. A tensão da história é muito bem conduzida, dá pra tomar uns sustinhos aqui e acolá. E as atuações, todas as atuações, são excelentes. O que só melhora pelo fato de o filme ter ótimos diálogos. Eu gostei bastante do encontro do Teddy com o psiquiatra alemão, onde o doutor fica provocando o Teddy, tentando analisá-lo, enquanto o policial mostra seus superpoderes investigativos pra bloquear os ataques psquiátricos do alemão. E considerando que é sugerida a possibilidade do psiquiatra alemão ter sido um nazista, podemos interpretar essa cena como um embate entre as forças da coalizão e o império nazista, Bem e o Mal, Deus e o Capeta, Ying e Yang, silicone e peitos naturais, Palmeiras e Corinthians. Pra mim, esse embate foi vencido pelas forças da coalizão, o Bem, Deus, peitos naturais e Palmeiras. Ying e Yang empataram.

Mas essa competência na direção já era esperada, afinal, o filme é do Scorsese. Tirando essa beleza toda e o fato de que sim, A Ilha do Medo está bem acima da média dos filmes que andam saindo por aí, não achei lá grande coisa. Um filme de suspense é bom quando... bem, quando te surpreende. Se não há a surpresa, o filme desmorona. Se a inevitável reviravolta no roteiro for descoberta antes do fim da história, a coisa perde a graça. Isso QUASE acontece em A Ilha do Medo.

Vejam bem, desde que o Teddy começou a ter pesadelos bizarros, já me bateu um medinho. Não medo dos pesadelos, mas de como a história se desenrolaria. Eu simplesmente combinei os fatores: temos um policial investigando um estranho desaparecimento num hospício localizado numa ilha (do medo); em certo ponto do filme surge a questão de que possa haver uma conspiração nessa ilha e que tá todo mundo envolvido; o policial tem sonhos estranhos e alucinações... Fala sério, já dá pra imaginar onde isso tá indo, né? E o pior é que vai mesmo nessa direção e acaba sendo um pouco decepcionante.

Esse tipo de reviravolta já tá meio batida, meio clichê. Mas isso não é importante, ser clichê não importa. O problema mesmo é quando toda a estrutura do filme depende da reviravolta. E se você descobre como o filme vai terminar, é melhor que a história tenha uma profundidade maior e outros elementos que te façam ficar satisfeito. A Ilha do Medo é bom até certo ponto e provavelmente seja o caso de apreciar mais a viagem do que a chegada. Ainda assim, achei o filme superficial. O drama do Teddy é bem parecido com o do personagem do DiCaprio em A Origem, e eu achei que no filme do Nolan o drama entre marido e esposa foi melhor explorado, com mais profundidade.

Uma pena, porque a premissa da história é muito boa. Quando sugerem uma possível conspiração na ilha, quase esqueci que eu já sabia como tudo ia terminar. Se eles tivessem seguido essa rota, explorado a tal conspiração... seria um filme excelente. O jeito que o roteirista resolveu as inúmeras questões levantadas no decorrer da trama pareceu preguiçoso. Tipo "sabe aquele personagem lá que o mano Teddy encontrou e trocou mó idéia foda com altas revelações? Então..." Fraco.

Mas apesar de eu não ter gostado muito do filme, ainda o recomendo. A Ilha do Medo quase não desmorona porque é bem dirigido pra caralho, tem boas atuações e porra, talvez eu esteja dando uma de espertalhão. Talvez o desfecho não seja tão óbvio e, se for, talvez não seja tão ruim quanto eu achei.Talvez a reviravolta nem importe tanto, no final das contas. Então assista A Ilha do Medo, é sua obrigação pois é uma obra Scorsesiana.

Só vou dar um spoilerzinho básico: no primeiro encontro da maluca fugitiva com o Teddy, pra nossa surpresa percebemos que ela, se não gostosinha, pelo menos daria um caldinho. E o Teddy utiliza a velha tática de se passar pelo marido falecido pra pegá-la. Não dá certo.

Spoiler: Pena
Nível:
Título original: Shutter Island
Direção: Martin Scorsese
Duração: 138 min

segunda-feira, 25 de abril de 2011

[Filme; Comics] Watchmen (2009; 1986 - 87)

Quis custodiet ipsos custodes?

Devem estar pensando que essa crítica chegou em demasia atrasada, mas a verdade é que odeio tendências, sempre espero a poeira e a agitação de algo recente baixar para eu poder assistir ou ler ou comer, assim meu cérebro fica mais limpo e centrado no objetivo, e posso degustar tal iguaria sem me preocupar com o que algum filhodaputa tenha comentado sobre e livre da ansiedade momentânea conseguinte ao lançamento. Mas como o objetivo desse blog é enrolar vocês e a mim mesmo, vamos começar a verborragia pelo começo.
Há alguns anos atrás, uns 4 aproximadamente, me deparei com uma obra que a principio, confesso, achei um tanto enfadonha, não por realmente ser chata, ruim, tosca ou disputar páginas com o livro do Musashi, a verdade é que aos poucos fui sacando sua complexidade e percebi o quanto seria uma leitura cansativa, que exigiria muito da mente. Não era um simples quadrinho, era muito mais, e quem já leu sabe que não é nenhum exagero. Em cada quadrinho há uma sacada inteligente, sarcástica ou referencial, não tem como ler por pedaços, é necessário ler como um todo, as imagens se entrelaçam com os textos e com referências históricas, é uma leitura difícil para quem quer degustar e se esmerar nos mínimos detalhes. Requer toda uma preparação física e psicológica, e quanto maior o conhecimento de vida, teórica e prática, mais completa será a leitura. Considero como a literatura mais completa e complexa da 9ª arte. Levei cerca de um ano para terminar de ler a obra máxima do Alan Moore, um mês para degustar com meus neurônios, minhas células epidérmicas e com meu pênis cada edição. Watchmen foi em verdade escrito pelos personagens, eles foram encarnados como uma perspectiva subatômica estrutural do Dr. Manhattan, a loucura paranóica investigativa e lógica do Rorschach, a inteligência cataclismica filantrópica insensível de Mr. Veidt e o sarcasmo sanguinário do Comediante, uma verdadeira piada crítica sobre como anda a humanidade e sua natureza, se perdendo através de um universo paralelo, um tanto dieselpunk, em que a guerra fria chega ao seu auge com a iminência de uma terceira guerra mundial quando o governo americano decreta o defcon 1 e os relógios contando 1min pra meia noite. Misturar uma realidade que começou no fim da segunda guerra, com o surrealismo dos quadrinhos em uma linha de acontecimentos extremamente planejadas e bem enraizadas em fatos, foi uma tremenda jogada de mestre. Alan Moore conseguiu criar um universo inteiro, partindo de premissas remanescentes a partir da queda de Hitler e finalizando no ano de 85, o decorrer de quase 40 anos dentro de 12 edições que tinham o intuito de ressuscitar alguns personagens mortos da DC em uma mini-série sem muita expectativa. Watchmen foi uma grande surpresa, não dá para resumir ou dar uma mínima noção do que seja em uma folha. Watchmen é um verdadeiro drama psicológico, leva a mente humana a extremos, é longe de ser um clichê sobre heróis e humanos ou um melodrama sobre escolhas de vida ou morte, é uma obra filosófica que destrói todos os paradigmas de que quadrinhos precisam ser maniqueistas, bom e mal, herói e vilão, ele quis fazer uma sátira com essas idéias preto e branco, de quando a televisão ainda não era em cores, isso estava obsoleto, perdido no passado, a mensagem de Alan Moore é que não há deuses ou demônios em posse do controle da humanidade, somos nosso próprios vilões, fazemos nossos próprios horrores, selvagens, e às vezes temos que fazer escolhas entre a vida e a vida e muitos não aguentam a pressão de conviver com a culpa e preferem ser relegados a não-existência (bem, não sem antes deixar a sua marca), isso é ser humano.
Quando eu terminei de ler, tive uma certeza absoluta, tá aí um quadrinho que nenhum filme jamais vai conseguir competir, e estava bem no inicio da febre de Hollywood por adaptações da nona arte para a sétima. Bem, eu estava definitivamente enganado. Assim como tem seu gênio nos quadrinhos, o cinema acertou em cheio escolhendo um gênio paras as telas.
Quando vi pela primeira vez a imagem dos uniformes reluzentes e enfeitadinhos, imaginei que estavam seguindo a nova tendência dos filmes de quadrinhos e deixando de lado os originais colantes foscos de tecido cru. Me enganei de novo, era só mais um pedaço da idéia genial na criação do filme. Os minutemens da década de 40 usavam os colantes oldschool, bem, o tempo passa e a tecnologia muda, era a idéia do diretor.
Apesar de não ser um filme noir, ele leva aquela sensação vintage com coloração turva de cores primárias e jogo de luz e câmera bem focados. Os cenários e figurinos não ficam atrás, tudo muito bem planejado, talvez  um tanto enquadrado no estilo dieselpunk, com fornos de microondas, televisores bojudos e computadores como os antigos da IBM. Visuais de época, penteados, vestimentas e apetrechos, foi tudo milimetricamente pensado. Os atores também foram bem escolhidos, garotas no melhor estilo pin-up e nada de boyzinhos com cara de galã chupa-pinto, a única excessão foi o Ozymandias, que tinha um aspecto meio abaitolado que não condizia com o personagem executivo bilionário Matrix.
Mas com a trilha sonora, putaquemepariu, ele se superou, foi a melhor trilha sonora já selecionada para um filme na história do cinema, que já começa arrebatando corações com cenas rapidamente resumidas ao som de The Times They Are a-Changin’ do Bob Dylan, ou o sexo semi-explicito ao som de Hallelujah do Leonard Cohen e terminando de fuzilar nossos cérebros com o enterro do Comediante ao som de Sound of Silence por Simon e Garfunkel. A versão cover do Dylan, All Along the Watchtower, pelo Jimi Hendrix também aparece, assim como Me and Bobby McGee da Janis Joplin e alguns clássicos do Jazz como Nina Simone, Billie Holiday e Nat King Cole que não deixam nada a desejar, tudo escolhido com muito esmero e bom gosto.
Em 2h e 35min de filme, Zack Snyder, que já havia revolucionado o cinema com 300 (que também terá seu espaço aqui no blog), conseguiu provar mais uma vez que é um mestre nas artes visuais e que poderia adaptar Watchmen para as telas com maestria, conseguindo ao mesmo tempo agradar fãs xiitas, fazendo uma obra muito próxima do original, e dando a volta por cima de dificuldades de adaptação com sagacidade, originalidade e aptidão. Definitivamente genial, seu filhodaputa.
Mas deixando de lado a babação de ovo e sendo sincero, uma coisa eu não gostei no filme, senti a falta do polvo gigante no final. E por motivos de tempo, os contos do cargueiro negro só podem ser vistos na versão do diretor com quase 4h de filme, cansativo pra cacete, mas vale a pena.

Spoiler: Galo
Nível:
Título original: Watchmen
Direção: Zack Snyder
Escritor HQ: Alan Moore 
Duração: 163 min