É o seguinte: um policial chamado Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio, aquele do Diário de um Adolescente e A Praia) e seu parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo, aquele do De Repente 30) recebem a missão de investigar o desaparecimento de uma paciente do hospício que fica em Shutter Island. Não lembro se eles traduziriam Shutter Island pra Ilha do Medo nas legendas do filme ou na versão dublada, mas seria legal um hospício sinistro que fica num lugar chamado Ilha do Medo. Seria perfeito cinematograficamente, mas acho que seria impossível um lugar com esse nome não passar por umas dificuldades de vez em quando, tipo um cano furado, ratos, goteiras, privadas entupidas, desaparecimentos e os ocasionais assassinatos.
O problema é que o desaparecimento dessa paciente foi meio estranho. Como assim ela fugiu de uma cela trancada? Não há sinais de arrombamento. As paredes da cela são tão espessas que aguentariam uma bala de canhão. Como ninguém viu ela fugindo? Por que ela fugiu? Pra onde ela foi? Ela está viva? Ela é gostosa? Se ela for gostosa, será que Teddy Daniels conseguirá superar seus traumas (ele perdeu a esposa, que foi assassinada) e o clima tenso da ilha, a falta de bares e praias românticas, para que possa xavecar a maluca fugitiva e viver noites de sexo selvagem com ela? Bom, não sei. Na verdade eu sei, porque vi o filme. Não vou dar spoilers nem nada.
A primeira coisa que chama atenção neste filme é que é foda pra caralho. Extremamente bem dirigido, tem umas cenas em que o Teddy sonha que são incríveis e bizarras. A tensão da história é muito bem conduzida, dá pra tomar uns sustinhos aqui e acolá. E as atuações, todas as atuações, são excelentes. O que só melhora pelo fato de o filme ter ótimos diálogos. Eu gostei bastante do encontro do Teddy com o psiquiatra alemão, onde o doutor fica provocando o Teddy, tentando analisá-lo, enquanto o policial mostra seus superpoderes investigativos pra bloquear os ataques psquiátricos do alemão. E considerando que é sugerida a possibilidade do psiquiatra alemão ter sido um nazista, podemos interpretar essa cena como um embate entre as forças da coalizão e o império nazista, Bem e o Mal, Deus e o Capeta, Ying e Yang, silicone e peitos naturais, Palmeiras e Corinthians. Pra mim, esse embate foi vencido pelas forças da coalizão, o Bem, Deus, peitos naturais e Palmeiras. Ying e Yang empataram.
Mas essa competência na direção já era esperada, afinal, o filme é do Scorsese. Tirando essa beleza toda e o fato de que sim, A Ilha do Medo está bem acima da média dos filmes que andam saindo por aí, não achei lá grande coisa. Um filme de suspense é bom quando... bem, quando te surpreende. Se não há a surpresa, o filme desmorona. Se a inevitável reviravolta no roteiro for descoberta antes do fim da história, a coisa perde a graça. Isso QUASE acontece em A Ilha do Medo.
Vejam bem, desde que o Teddy começou a ter pesadelos bizarros, já me bateu um medinho. Não medo dos pesadelos, mas de como a história se desenrolaria. Eu simplesmente combinei os fatores: temos um policial investigando um estranho desaparecimento num hospício localizado numa ilha (do medo); em certo ponto do filme surge a questão de que possa haver uma conspiração nessa ilha e que tá todo mundo envolvido; o policial tem sonhos estranhos e alucinações... Fala sério, já dá pra imaginar onde isso tá indo, né? E o pior é que vai mesmo nessa direção e acaba sendo um pouco decepcionante.
Esse tipo de reviravolta já tá meio batida, meio clichê. Mas isso não é importante, ser clichê não importa. O problema mesmo é quando toda a estrutura do filme depende da reviravolta. E se você descobre como o filme vai terminar, é melhor que a história tenha uma profundidade maior e outros elementos que te façam ficar satisfeito. A Ilha do Medo é bom até certo ponto e provavelmente seja o caso de apreciar mais a viagem do que a chegada. Ainda assim, achei o filme superficial. O drama do Teddy é bem parecido com o do personagem do DiCaprio em A Origem, e eu achei que no filme do Nolan o drama entre marido e esposa foi melhor explorado, com mais profundidade.
Uma pena, porque a premissa da história é muito boa. Quando sugerem uma possível conspiração na ilha, quase esqueci que eu já sabia como tudo ia terminar. Se eles tivessem seguido essa rota, explorado a tal conspiração... seria um filme excelente. O jeito que o roteirista resolveu as inúmeras questões levantadas no decorrer da trama pareceu preguiçoso. Tipo "sabe aquele personagem lá que o mano Teddy encontrou e trocou mó idéia foda com altas revelações? Então..." Fraco.
Mas apesar de eu não ter gostado muito do filme, ainda o recomendo. A Ilha do Medo quase não desmorona porque é bem dirigido pra caralho, tem boas atuações e porra, talvez eu esteja dando uma de espertalhão. Talvez o desfecho não seja tão óbvio e, se for, talvez não seja tão ruim quanto eu achei.Talvez a reviravolta nem importe tanto, no final das contas. Então assista A Ilha do Medo, é sua obrigação pois é uma obra Scorsesiana.
Só vou dar um spoilerzinho básico: no primeiro encontro da maluca fugitiva com o Teddy, pra nossa surpresa percebemos que ela, se não gostosinha, pelo menos daria um caldinho. E o Teddy utiliza a velha tática de se passar pelo marido falecido pra pegá-la. Não dá certo.
Spoiler: Pena
Spoiler: Pena
Nível:
Título original: Shutter Island
Direção: Martin Scorsese
Duração: 138 min
Direção: Martin Scorsese
Duração: 138 min