terça-feira, 24 de maio de 2011

[Livro] A Batalha do Apocalipse (2010)

De vez em quando eu leio livros, dessa vez foi o best seller A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr. Terminei de ler o livro no sábado, supostamente o dia do Arrebatamento, em que os bons iriam para o céu e o resto ficaria aqui para morrer horrivelmente no fim do mundo, que aconteceria em outubro.

Eu nem saquei que estava lendo esse livro justo no dia do Arrebatamento. Fiquei pensando aqui se por um acaso eu fosse arrebatado, será que haveria livros no paraíso? E se houvesse, será que haveria todos os livros do mundo ou rolaria uma censura em obras do tipo "livros que possam causar pensamentos pecaminosos e jogar os justos que os lerem pro inferno"?

De qualquer forma, eu corria o risco de A Batalha do Apocalipse ser o último livro que eu leria, caso fosse arrebatado. Eu ficaria meio decepcionado porque, apesar de ter gostado do livro, certamente passar o meu último dia na terra lendo não é o que imagino pra mim.

Chega de papo furado e vamos pra sinopse. O livro é isso aí, a batalha do apocalipse. É isso o que acontece no livro, não há muita frescura na trama. Acompanhamos o personagem principal, o anjo Ablon, que foi expulso do paraíso e deve caminhar sobre a Terra até o dia do julgamento final, quando ele descobrirá seu papel na última grande batalha antes de tudo se foder.

A trama é meio óbvia, pois essa história de apocalipse talvez seja um dos temas mais antigos abordados pela literatura humana. As pessoas têm um fascínio inacreditável com o fim dos tempos, e isso é triste. É triste porque pessoal, acordem. O mundo não vai acabar tão cedo e com certeza não vai ser na nossa geração. Acredito que um dia a raça humana será extinta, mas esse dia está tão longe que é melhor desistirmos de ganharmos um camarote vip pra assistir ao fim de nossa espécie. Pessoas são piores que baratas. Somos muito mais resistentes que esses insetos e não vamos sair deste planeta a menos que ele se exploda.

Mas pra consolar vocês, fascinados com o fim do mundo, fiquem tranquilos porque desastres não vão faltar enquanto vivermos. Veremos muita gente morrer nos mais variados tipos de tragédias e, com um pouquinho de sorte, quem sabe vocês não participem de um desastre ou causem algum?

A diferença do livro do Eduardo Spohr é que acompanhamos o fim dos tempos sob a perspectiva dos anjos. É um olhar diferente sobre o assunto e isso, por si só, é bom. Mas não acho que o apocalipse sob o ponto de vista de seres imortais seja lá tão interessante. Simplesmente não há a mesma tensão e os anjos não sofrem dos problemas que um fim de mundo causaria na sociedade. Acho bem mais interessante acompanhar um cara comum no fim do mundo, tendo que evitar os desastres naturais, as pessoas, seu desespero pra salvar familiares etc. Mesmo sendo uma idéia já manjada, ainda há pontos interessantes que poderiam ser explorados. Sem contar o fato de rolar uma identificação maior entre a gente e um protagonista que seja parecido conosco.

Agora, anjos... Não dá pra se identificar muito com eles. Os caras não têm família, não tão nem aí pra esse tipo de coisa. Mesmo que nesse livro os anjos tenham motivações boas e objetivos a alcançar, não me preocupo tanto com o destino de um personagem que pode matar 500 anjos NA PORRADA e SOZINHO.

Outro ponto que é meio irritante no livro são os flashbacks. Esse tipo de ferramenta é muito boa se for bem usada, mas quando mal utilizada, é um pé no saco. Vamos a um exemplo de flashback bem utilizado: na série Lost. Quem já viu Lost sabe que boa parte da série é contada em flashbacks. Nesse caso funciona porque os personagens são misteriosos, as motivações deles são misteriosas e, para entender quem eles são e porque agem como agem, precisamos saber o que eles faziam no passado.

Em A Batalha do Apocalipse, nós já sabemos desde o começo quem é Ablon e suas motivações. Porra, quem ele é e o que quer estão descritos na sinopse. E durante o livro todo é pontuado que Ablon é um anjo, portanto não possui livre arbítrio. Então não há mistério nenhum acerca do personagem, pois ele sempre age do mesmo jeito em todas as situações. Como o livro começa nos dias atuais, não importa os perigos que Ablon passe nos flashbacks, sabemos que ele vai sobreviver. Boa parte desses flashbacks é focado em como Ablon se fode e o que ele faz pra se recuperar e, numa narrativa não-linear, isso não importa. Porra, sabemos que o cara tá vivão lá nos anos 2.000, então narrar uma aventura em que ele quase morre no passado torna a leitura um pouco chata porque não há tensão nenhuma que possa ser criada.

Claro, o objetivo do flashback pode ser estabelecer a relação entre os personagens, para que a gente os entenda. Nesse sentido, o primeiro flashback, que mostra como Ablon conheceu a bruxa Shamira, é interessante. Mas não precisava ser tão longo, pois a relação dos dois é bem simples. Sem contar que nesse flashback somos apresentados ao rei imortal da Babilônia e se bate muito na tecla da imortalidade do mano, logo, imaginei que ele apareceria mais tarde e seria importante pra história. Que nada, o cara só aparece mais uma vez, bem brevemente, e não adiciona coisa alguma.

O livro seria melhor se das duas, uma: os flashbacks fossem menores, ou se a história fosse linear. Se a trama começasse nos tempos antigos e progredisse até os dias atuais, o ritmo do livro seria melhor. Pois saberíamos que o objetivo do Ablon é sobreviver até o dia do apocalipse, então toda vez que ele se fodesse e quase morrese, ficaríamos tensos e esperando ele se livrar dos perigos em que se meteu.

Pra piorar, o único flashback que seria útil não acontece. Durante o livro, somos apresentados a Orion, o antigo rei de Atlântida. Orion é um anjo caído que lutou ao lado de Lúcifer e foi expulso do paraíso. Esse cara tem uma grande amizade com Ablon, que aparentemente surgiu quando eles viviam em Atlântida. Porra, por que não mostrou um flashback disso? Só se fala que os dois são amigos e fica por isso só. Então, quando Orion toma uma decisão heróica no fim do livro, não dá pra se importar muito com o que ele faz, pois não entendemos o peso da amizade dele com o Ablon, já que esse aspecto não foi bem desenvolvido.

Além disso, o livro é bem previsível, com conceitos bem familiares a quem já leu Neil Gaiman, já viu Cavaleiros do Zodíaco e Star Wars. Eduardo Spohr não arrisca em nada em momento algum, tudo acontece de acordo com as regras pré-definidas da estrutura básica de uma história. E até nesse básico ele erra um pouco. No começo do livro Ablon tem que ir ao inferno trocar uma idéia com Lúcifer. Temendo o perigo do inferno, Ablon pede que Shamira faça uma macumba maluca pra protegê-lo. E aí lemos um longo capítulo que descreve todo o ritual de macumba que ela faz. No final, ela manda duas mandingas no pobre anjo renegado. Uma pra proteger a mente do cara caso alguém o hipnotize e faça o mano comer alho, outra pra ressuscitá-lo em caso de morte.

Porra! Então sabemos que em algum momento, provavelmente na batalha final, o puto do Ablon morrerá e voltará a vida. Isso é péssimo porque a cena da morte de um herói é sempre foda, sempre abala o leitor pois pensamos que tudo está perdido. Claro, o herói sempre volta de alguma forma, mas se o momento é bem escrito, não sabemos COMO o cara vai voltar. Em a Batalha do Apocalipse, esse grande momento da história é arruinado porque já sabemos que Ablon tem uma macumba muito louca de ressuscitamento.

Tá bom, já falei bastante mal do livro. Mas como disse no começo, eu gostei da história. Os pontos positivos superam os negativos de longe. Apesar do livro ser lento em alguns momentos, a trama é bem divertida de ler. Isso graças às excelentes cenas de ação, que são muito bem descritas. A porradaria come solta e Ablon é um badass motherfucker de primeira categoria. O cara é um personagem carismático, apesar de ser meio CDF. A história dele é interessante e traz profundidade ao seu caráter. As relações entre os personagens, no geral, são bem construídas, mesmo que algumas delas sejam clichês.

O romance entre Ablon e Shamira é clichezinho e previsível, mas bem construído. Como ambos são bons personagens, entendemos porque os dois se apaixonam, e isso traz força pra história.

Já a relação de Ablon com seu arqui-inimigo, um anjo malvadão que esqueci o nome, é MUITO clichê e não tem profundidade nenhuma. Ablon é o bonzinho incorrigível, o vilão é pura maldade. Mas pelo menos rola boa porradaria entre os dois. Outro ponto positivo é que todos os personagens têm personalidade marcante, por mais breve que sejam suas participações no livro.

No fim das contas, A Batalha do Apocalipse acaba sendo bom. É o primeiro livro do Eduardo Spohr, então pra um iniciante no mundo literário tá legal. Dá pra entender porque é um best seller, porque as pessoas gostaram e é muito legal ver um livro desse tipo ser tão popular. É bem diferente do que se costuma publicar por aqui e certamente melhor do que a maioria dos grandes lançamentos que ficam entre os mais vendidos.

Só faltou mais sexo no livro. O anjo Ablon passa milhares de anos na Terra e não pega ninguém, isso é inaceitável.

Spoiler: Galo
Nível:
Título original: A Batalha do Apocalipse: Da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo
Autor: Eduardo Spohr
Duração: 569 páginas

3 comentários:

Bruno Greaser disse...

Porra, mesmo nos pontos positivos tem pontos negativos. Quando ouvi falar desse livro, que era brasileiro e best seller, fiquei bastante cético, já que é uma parada tão incomum por aqui e que best seller quase sempre é sinônimo de crepúsculo, harry potter e temas do clichê popular.
Faz anos que li um livro, sou um semi-analfabeto inculto do caralho, mas lerei um pra comentar aqui... ou não.
Mas enfim, cara, se prepare o mundo acaba ano que vem. Já estoquei o milho pra pipoca...

Alan disse...

Eu foquei mais nos pontos negativos porque não vejo muita gente comentando sobre eles. Aí enchi o saco mesmo, até nos pontos positivos tem umas merdas.

Mas é um livro divertido. Bom pra quem não costuma ler muito tomar vergonha na cara e ler alguma coisa.

Anônimo disse...

O personagem mais cativante é Orion. A gente pensa que ele vai ter um papel bem importante no fim, e isso não ocorre... Me decepcionei duramente.