segunda-feira, 25 de abril de 2011

[Filme; Comics] Watchmen (2009; 1986 - 87)

Quis custodiet ipsos custodes?

Devem estar pensando que essa crítica chegou em demasia atrasada, mas a verdade é que odeio tendências, sempre espero a poeira e a agitação de algo recente baixar para eu poder assistir ou ler ou comer, assim meu cérebro fica mais limpo e centrado no objetivo, e posso degustar tal iguaria sem me preocupar com o que algum filhodaputa tenha comentado sobre e livre da ansiedade momentânea conseguinte ao lançamento. Mas como o objetivo desse blog é enrolar vocês e a mim mesmo, vamos começar a verborragia pelo começo.
Há alguns anos atrás, uns 4 aproximadamente, me deparei com uma obra que a principio, confesso, achei um tanto enfadonha, não por realmente ser chata, ruim, tosca ou disputar páginas com o livro do Musashi, a verdade é que aos poucos fui sacando sua complexidade e percebi o quanto seria uma leitura cansativa, que exigiria muito da mente. Não era um simples quadrinho, era muito mais, e quem já leu sabe que não é nenhum exagero. Em cada quadrinho há uma sacada inteligente, sarcástica ou referencial, não tem como ler por pedaços, é necessário ler como um todo, as imagens se entrelaçam com os textos e com referências históricas, é uma leitura difícil para quem quer degustar e se esmerar nos mínimos detalhes. Requer toda uma preparação física e psicológica, e quanto maior o conhecimento de vida, teórica e prática, mais completa será a leitura. Considero como a literatura mais completa e complexa da 9ª arte. Levei cerca de um ano para terminar de ler a obra máxima do Alan Moore, um mês para degustar com meus neurônios, minhas células epidérmicas e com meu pênis cada edição. Watchmen foi em verdade escrito pelos personagens, eles foram encarnados como uma perspectiva subatômica estrutural do Dr. Manhattan, a loucura paranóica investigativa e lógica do Rorschach, a inteligência cataclismica filantrópica insensível de Mr. Veidt e o sarcasmo sanguinário do Comediante, uma verdadeira piada crítica sobre como anda a humanidade e sua natureza, se perdendo através de um universo paralelo, um tanto dieselpunk, em que a guerra fria chega ao seu auge com a iminência de uma terceira guerra mundial quando o governo americano decreta o defcon 1 e os relógios contando 1min pra meia noite. Misturar uma realidade que começou no fim da segunda guerra, com o surrealismo dos quadrinhos em uma linha de acontecimentos extremamente planejadas e bem enraizadas em fatos, foi uma tremenda jogada de mestre. Alan Moore conseguiu criar um universo inteiro, partindo de premissas remanescentes a partir da queda de Hitler e finalizando no ano de 85, o decorrer de quase 40 anos dentro de 12 edições que tinham o intuito de ressuscitar alguns personagens mortos da DC em uma mini-série sem muita expectativa. Watchmen foi uma grande surpresa, não dá para resumir ou dar uma mínima noção do que seja em uma folha. Watchmen é um verdadeiro drama psicológico, leva a mente humana a extremos, é longe de ser um clichê sobre heróis e humanos ou um melodrama sobre escolhas de vida ou morte, é uma obra filosófica que destrói todos os paradigmas de que quadrinhos precisam ser maniqueistas, bom e mal, herói e vilão, ele quis fazer uma sátira com essas idéias preto e branco, de quando a televisão ainda não era em cores, isso estava obsoleto, perdido no passado, a mensagem de Alan Moore é que não há deuses ou demônios em posse do controle da humanidade, somos nosso próprios vilões, fazemos nossos próprios horrores, selvagens, e às vezes temos que fazer escolhas entre a vida e a vida e muitos não aguentam a pressão de conviver com a culpa e preferem ser relegados a não-existência (bem, não sem antes deixar a sua marca), isso é ser humano.
Quando eu terminei de ler, tive uma certeza absoluta, tá aí um quadrinho que nenhum filme jamais vai conseguir competir, e estava bem no inicio da febre de Hollywood por adaptações da nona arte para a sétima. Bem, eu estava definitivamente enganado. Assim como tem seu gênio nos quadrinhos, o cinema acertou em cheio escolhendo um gênio paras as telas.
Quando vi pela primeira vez a imagem dos uniformes reluzentes e enfeitadinhos, imaginei que estavam seguindo a nova tendência dos filmes de quadrinhos e deixando de lado os originais colantes foscos de tecido cru. Me enganei de novo, era só mais um pedaço da idéia genial na criação do filme. Os minutemens da década de 40 usavam os colantes oldschool, bem, o tempo passa e a tecnologia muda, era a idéia do diretor.
Apesar de não ser um filme noir, ele leva aquela sensação vintage com coloração turva de cores primárias e jogo de luz e câmera bem focados. Os cenários e figurinos não ficam atrás, tudo muito bem planejado, talvez  um tanto enquadrado no estilo dieselpunk, com fornos de microondas, televisores bojudos e computadores como os antigos da IBM. Visuais de época, penteados, vestimentas e apetrechos, foi tudo milimetricamente pensado. Os atores também foram bem escolhidos, garotas no melhor estilo pin-up e nada de boyzinhos com cara de galã chupa-pinto, a única excessão foi o Ozymandias, que tinha um aspecto meio abaitolado que não condizia com o personagem executivo bilionário Matrix.
Mas com a trilha sonora, putaquemepariu, ele se superou, foi a melhor trilha sonora já selecionada para um filme na história do cinema, que já começa arrebatando corações com cenas rapidamente resumidas ao som de The Times They Are a-Changin’ do Bob Dylan, ou o sexo semi-explicito ao som de Hallelujah do Leonard Cohen e terminando de fuzilar nossos cérebros com o enterro do Comediante ao som de Sound of Silence por Simon e Garfunkel. A versão cover do Dylan, All Along the Watchtower, pelo Jimi Hendrix também aparece, assim como Me and Bobby McGee da Janis Joplin e alguns clássicos do Jazz como Nina Simone, Billie Holiday e Nat King Cole que não deixam nada a desejar, tudo escolhido com muito esmero e bom gosto.
Em 2h e 35min de filme, Zack Snyder, que já havia revolucionado o cinema com 300 (que também terá seu espaço aqui no blog), conseguiu provar mais uma vez que é um mestre nas artes visuais e que poderia adaptar Watchmen para as telas com maestria, conseguindo ao mesmo tempo agradar fãs xiitas, fazendo uma obra muito próxima do original, e dando a volta por cima de dificuldades de adaptação com sagacidade, originalidade e aptidão. Definitivamente genial, seu filhodaputa.
Mas deixando de lado a babação de ovo e sendo sincero, uma coisa eu não gostei no filme, senti a falta do polvo gigante no final. E por motivos de tempo, os contos do cargueiro negro só podem ser vistos na versão do diretor com quase 4h de filme, cansativo pra cacete, mas vale a pena.

Spoiler: Galo
Nível:
Título original: Watchmen
Direção: Zack Snyder
Escritor HQ: Alan Moore 
Duração: 163 min

2 comentários:

Alan disse...

A única coisa que não gostei mesmo foi o ator que faz o Ozzy. Tá na cara no minuto que ele aparece que ele é o vilão. Tem mó cara de playboyzinho nojento vegetariano pro-life petista de esquerda socialista ateu defensor de direitos humanos de bandido.

Bruno Greaser disse...

Advogado de político corrupto, daqueles que quando vai abaixar pra amarrar o cadarço dá pra ver as notas de 100 escondidas na cueca